Rosiane Machado

Considerado o alimento padrão ouro, o leite materno possui inúmeros benefícios para a criança, podendo influenciar sua história de vida até a fase adulta. Além de proteger contra diarreias e infecções respiratórias, o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e complementar até os dois anos ou mais, diminui o risco de alergias, colesterol alto, diabetes e obesidade. O alimento tem, ainda, efeito positivo na inteligência da criança e protege a mãe do risco de desenvolver câncer de mama e ovário.

De portas abertas para apoiar, proteger e promover o aleitamento materno, os Bancos de Leite Humano (BLHs) recebem mães ansiosas por auxílio técnico e emocional em questões relacionadas à amamentação. Apenas o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), que é o Centro de Referência da Rede Global de Bancos de Leite Humano (rBLH), atende em média mil mães por mês. “Amamentar deve ser prazeroso e não combina com dor. Se a mãe está sentindo dor, algo está errado e ela deve procurar atendimento especializado o quanto antes”, ressalta a enfermeira pediátrica do BLH do IFF, Maíra Domingues. Para agendar uma consulta, basta localizar e entrar em contato com a unidade mais próxima (localize aqui).

 Isabela Schincariol
“Já conhecia o trabalho desenvolvido pelo BLH e tinha certeza que seria socorrida", destacou a jornalista Isabela Schincariol (foto: Arquivo pessoal)

Já no corredor do BLH do Instituto, é possível ouvir o chorinho dos pequenos. Na sala de espera, mães angustiadas aguardam atendimento. Foi assim que a jornalista Isabela Schincariol chegou em sua primeira visita. Com a pequena Maria Carolina, de 20 dias nos braços, Isabela tinha queixas clínicas comuns a muitas mulheres nesta fase. “O início da minha amamentação foi tranquilo. Afinal, fiz o dever de casa durante a gestação: li diversos artigos, matérias, assisti a vídeos explicativos, conversei com amigas e ouvi as milhares de dicas que todo mundo tem para dar a uma grávida que encontra pela rua. Portanto, tinha certeza que tiraria de letra. No entanto, na prática tudo é diferente. Depois de 15 dias, eu estava chorando de dor e sofrendo a cada mamada por conta de uma enorme fissura no seio”, lembra a mãe de primeira viagem.

No IFF, Isabela encontrou apoio e foi orientada em relação a forma correta que o bebê deve realizar a pega no momento da mamada. Em muitos casos, ele abocanha apenas o bico do seio materno, o que representa uma das principais causas de fissuras nas mamas. “Já conhecia o trabalho desenvolvido pelo BLH e tinha certeza que seria socorrida. Contudo, o carinho como fui recebida pela equipe me surpreendeu. Mudou a minha experiência em relação à amamentação. Finalmente consegui voltar a curtir esse momento tão maravilhoso de troca e laço com a minha filha”, relata a jornalista.

A conscientização sobre a importância do aleitamento exclusivo até os seis meses começa ainda no pré-natal. Durante os grupos educativos para os futuros papais realizados todas as quartas e quintas-feiras no Instituto, os casais tiram dúvidas e compartilham suas ansiedades. Os profissionais aproveitam a oportunidade para desmistificar crenças antigas que possam contribuir para o desmame precoce. Um mito muito frequente está relacionado aos gêmeos. Amamentação de gêmeos é possível? A resposta é sim. Amamentar dois bebês não só é possível, como também recomendável.

Rosiane Machado aprendeu essa lição logo cedo. O que ela não esperava é que Arthur e Pedro fossem chegar antes do tempo. Com 31 semanas de gestação os meninos vieram ao mundo e precisaram ficar sob os cuidados da Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal (UTI Neo) do IFF. “Acompanhar um filho na UTI é uma experiência que não tem como explicar. A primeira vez que eu pude pegar meus meninos no colo, a primeira vez que eu consegui colocá-los no peito. Tudo o que eu fiz a primeira vez com eles foi mágico”, lembra a mãe.

Enquanto não podia amamentar seus filhos, Rosiane contou com a solidariedade de outras mães. “Tenho muito o que agradecer a elas pela doação de leite materno que meus bebês receberam. Além de salvar a vida das crianças, elas dão força para outras mães. Se não fosse esse leite e todo o trabalho que é feito pelo BLH como seria? A mãe que doa não tem noção da felicidade que ela vai levar para a mãe do prematuro.  Ela não sabe a realização que é ver o nosso filho se desenvolver: sair da incubadora, dos aparelhos respiratórios, ganhar peso, não precisar mais da sonda para se alimentar,  começar a usar o copinho e, posteriormente, enfim, chegar o momento da amamentação. Hoje, os meus meninos estão super saudáveis, com dois anos, graças a esse leite. Da mesma forma que me ajudaram, depois eu tive o prazer de fazer o mesmo. Foi muito gratificante! É tão fácil doar!”, relata a mãe dos gêmeos Pedro e Arthur.

O leite doado aos BLHs ou postos de coleta de todo o país passa por um rigoroso processo de seleção, classificação e pasteurização até que esteja pronto para ser distribuído com qualidade certificada aos bebês prematuros e/ou de baixo peso internados nas UTIs Neo. Produzindo leite excedente, Luciana d'Aulizio, se tornou doadora alguns meses depois de passar pelo IFF para buscar ajuda e corrigir a pega do pequeno Davi, seu primogênito. Com quase dois anos, Davi continua mamando no peito e quando sobra, Luciana ainda ajuda a salvar a vida de outras crianças. “Pra mim isso representa uma grande vitória, pois o início foi muito difícil. Tive febre, entupimento de uma das mamas, mastite e até zika. Ofereci o peito mesmo quando senti dor. Até que fui ao IFF para me informar. Precisei de muito apoio, determinação, acolhimento e fé para dar conta de tudo”, aponta Luciana. 

doadora Luciana
"Se todo mundo ajudar o próximo de alguma forma, podemos transformar o mundo e ajudar a salvar vidas", afirmou a doadora Luciana d'Aulizio (foto: Arquivo pessoal)

“Desde que o Davi completou seis meses, passei a ser doadora de leite - algo que sempre sonhei em fazer durante a gestação. A doação não é apenas um meio de ajudar outras crianças, mas também é uma alternativa para continuar estimulando a produção de leite materno. Se todo mundo ajudar o próximo de alguma forma, podemos transformar o mundo e ajudar a salvar vidas. Por isso, faço questão de compartilhar todas as dicas que recebi com outras mulheres e de divulgar a causa. Amamentar é, antes de tudo, um ato de amor”, completa Luciana. 

A Rede conta atualmente com cerca de 85 mil doadoras no Brasil. Apenas em 2016, aproximadamente 183 mil litros de leite foram coletados, beneficiando mais de 166 mil recém-nascidos no país. No ano passado, a Rede contou com a solidariedade de 172 mil doadoras. Para integrar esta rede pela vida, as mães  devem ser saudáveis e não podem fazer uso de medicamentos que impeçam a doação. O cadastro é realizado de forma fácil. Basta entrar em contato, por telefone ou presencialmente, com um BLH e apresentar os últimos exames de sangue. Diferente da doação de sangue que necessita de coleta presencial, a doação de leite humano pode ser feita em casa e aos poucos, conforme orientações de higienização e armazenamento adequados. Para esclarecer dúvidas, consulte o site da Rede BLH ou ligue gratuitamente para  0800 026 8877.

Aline Câmera
IFF/Fiocruz

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