Artigos

Leo Heller

Foi lançado recentemente o primeiro relatório sobre o monitoramento das metas relativas a água e esgotos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Estas metas adotam um conceito de acesso aos serviços mais exigente que o adotado no período dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio ODM/ ONU. Por essa razão, o quadro global exibido, para praticamente todos os países, é muito mais pessimista que aquele apontado em 2015, ano final dos ODM. A mensagem é que nos próximos 15 anos (agora já seriam 13) os países necessitarão se esforçar muito para o cumprimento das metas.

O monitoramento na era dos ODM exibia o Brasil em uma posição confortável, indicando acesso de 98% e

Jurandir Renovato

No princípio Deus criou as letras e os números. Não satisfeito, no segundo dia criou as palavras e as contas, não aquelas que chegam no fim do mês, pelo correio, mas as de somar e multiplicar, coisa simples ainda. No terceiro dia, Deus criou os verbos, os pronomes e, claro, a regra de três. No quarto dia surgiram as frases e as equações, as sentenças e os números primos. Foi só no quinto dia que Deus se lembrou do palavrão, do Pi e da taxa de juros. Já estava quase tudo pronto.

No sexto dia da criação Deus pensou: que adianta tudo isso se não tenho como usar, como mostrar para os outros? Então,

Eliane Robert de Moraes

Ecléa Bosi era única, a começar pelo nome. Quanto a isso, não restava qualquer dúvida a quem quer que tenha tido o privilégio de conviver com ela. A bem da verdade, nem era preciso passar pela prova da convivência para sabê-lo: bastava um breve contato para se perceber a singularidade que envolvia por inteiro a sua pessoa. Daí, por certo, a impressão marcante que sua presença causava, não raro traduzida nas impressões de que ela parecia “estar em outro plano”, “viver uma vida outra” ou “não ser deste mundo”.

Impressão à primeira vista, que captava sua superfície assim como anunciava sua profundidade, oferecendo-nos não só um rosto, uma voz ou um jeito de andar

Paulo Saldiva

Brasil vive nos dias atuais uma epidemia de consumo de crack. A partir dos anos 1990, o número de usuários cresce mais e mais, atingindo nos dias de hoje mais de um milhão de brasileiros.

Em outras palavras, partimos de um cenário onde se relatava um problema potencial para chegar ao ponto onde estamos, onde nos deparamos diuturnamente com jovens dependentes que perambulam esquálidos pelas ruas de nossas cidades.

No momento, o Brasil é o segundo maior consumidor desta droga. O crack é um derivado da cocaína, onde, por meio de adição de uma base forte à cocaína não purificada, obtém-se um extrato oleoso que, após secagem, pode ser cortado em “pedras”.

Devido às

PLoS Medicine

Quase 130 anos após a abolição da escravidão no Brasil, a desigualdade racial continua estruturalmente enraizada no país. O índice de mortalidade por condições sensíveis à atenção primária (mortes evitáveis) é entre 17% e 23% maior em brasileiros que se autodeclaram negros ou pardos. Entretanto, a expansão da atenção primária possui um papel importante na redução de iniquidades sociais em saúde e pode ajudar a reverter estes números.

Estes são alguns dos resultados apontados no estudo Association between expansion of primary healthcare and racial inequalities in mortality amenable to primary care in Brazil: a national longitudinal analysis, publicado no periódico científico de acesso aberto PLoS Medicine.

Ao analisar o impacto da expansão do programa Estratégia

voleibol

As preocupações ligadas à saúde e à educação foram o que levaram o Rio de Janeiro a começar a praticar ginástica e exercícios físicos no século 19. Essa relação, entretanto, não foi imediata. É o que conta o artigo Relações entre ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX: reflexões a partir do caso do Colégio Abílio, 1872-1888, publicado pela revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (vol.23, nº 4), da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Os historiadores Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres analisam as relações entre as atividades físicas e a saúde no Rio de Janeiro para entender a presença social da ginástica e captar as apreensões que a cercavam

Jean Pierre Chauvin

“[…] não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor, velando em silêncio e cheios de paciência meu sono adolescente?” (Raduan Nassar)[1]

Para os brasileiros, 2016 foi um ano de consideráveis turbulências nas esferas geopolítica, socioeconômica e cultural. No entanto, em meio a calorosas divergências, os leitores de nossa melhor literatura depararam com um livro em conteúdo e forma de alento. Trata-se da Obra Completa de Raduan Nassar[2], em edição cuidadosamente preparada pela Companhia das Letras, que conquistou, com todo o mérito, o último Prêmio Camões.

Lá estão Lavoura arcaica (de 1975) e Um copo de cólera (de 1978) – romances consagrados perante crítica e público. Porém, a maior surpresa fica por conta dos

Natalia Pasternak Taschner

O ano era 1922. Duas crianças de uma mesma família morreram no mesmo dia. Anna Ivene Miller, com dois anos e meio, e Stanley Lee Miller, que tinha acabado de fazer um ano, foram vítimas de caxumba, sarampo e coqueluche, simultaneamente. As outras crianças da família, um total de cinco, também adoeceram, mas sobreviveram.

Essa situação era comum nos anos 20. Uma em cada cinco crianças morria de alguma doença infecciosa antes de completar 5 anos. Hoje não imaginamos como essas doenças eram cruéis. Não podemos imaginar a dor de perder dois filhos para doenças tão facilmente prevenidas com vacinas. Quantas gerações já se passaram desde tragédias como a da família Miller nos EUA?

Carlos Jose Saldanha Machado

Atravessamos um momento histórico de profundas mudanças, contradições e radicalismos que expressam os limites paradigmáticos de um modelo de civilização e desenvolvimento que vem sendo consolidado no último século e intensificado nos últimos 50 anos, com a predominância do capitalismo neoliberal que tem se esforçado para uniformizar a humanidade através de uma plêiade de ações, em escala planetária, conhecida como globalização. Esse termo refere-se àqueles processos que tendem a criar e consolidar uma economia mundial unificada, transformando recursos naturais em matérias-primas e energia sem levar em consideração os sistemas biológicos e físicos que sustentam a vida na Terra.

O aumento do fluxo de capitais torna-se mais importante do que as atividades de produção e

Jose Ernesto Belizario

Apesar dos notáveis resultados da recente pesquisa oncogenômica, as vias de etiologia dos cânceres são ainda bastante discutidas no meio científico. Não há mais dúvidas de que são as mutações no DNA que determinam os eventos catastróficos que culminam com a proliferação desordenada de células malignas. Alguns tipos de câncer são mais frequentes entre as populações, como, por exemplo, o câncer de pele no Brasil, o que é explicado pela grande exposição ao sol, a fonte de luz UV.

Mas como explicar os casos (não muito frequente) entre fumantes, que mesmo sofrendo bombardeios diários com centenas de carcinógenos potenciais do tabaco, não desenvolvem ao longo de toda a vida um câncer de pulmão detectável?

Hernan Chaimovich

É evidente, até pelo acompanhamento das edições recentes do Jornal da USP, que o assunto homeopatia é controverso. A palavra controvérsia vem do latim controversia (movimento oposto, discussão entre dois antagonistas, ponto de um litígio, processo), composta das raízes: contra (enfrentamento), versus (de vertere, dar voltas) e ia (qualidade). Um dos significados do termo controvérsia, que certamente se aplica ao material publicado, é “um desacordo público com dois lados abertamente debatendo”. Por enquanto, tudo bem. Estamos debatendo publicamente e certamente há pelo menos dois lados neste desacordo. A pergunta que se coloca é: por que a homeopatia vem sendo tema controverso há tanto tempo e, também, como uma controvérsia aparentemente inserida em parte numa única comunidade,