Theatro Municipal

Tese defendida na Unesp foca Região Metropolitana de São Paulo de 2000 a 2016

A redução do número de orquestras profissionais mantidas por organismos públicos na Região Metropolitana de São Paulo, no período 2000 a 2016, é o ponto de partida de tese de doutorado de Camila Carrascoza Bomfim, defendida no Programa de Pós-graduação em Música do Instituto de Artes (IA) da Unesp,

Sob orientação do professor Marcos Fernandes Pupo Nogueira, a pesquisa, intitulada "A Música Orquestral, a Metrópole e o Mercado de Trabalho: o declínio das orquestras profissionais subsidiadas por organismos públicos na região Metropolitana de São Paulo de 2000 a 2016", mostra diversas facetas desse encolhimento que apontou uma redução de 12 orquestras em atividade apoiadas pelo governo, a partir de 1949, para sete, em 2016.

Uma delas é o baixo enraizamento dessas orquestras na comunidade e a manutenção dos valores da alta cultura no meio musical. "Haveria a necessidade de uma mudança comportamental das orquestras no sentido de uma conscientização por parte dos músicos em relação à situação iminente do afastamento do público", diz Camila. De acordo com a pesquisadora, eles poderiam empreender ações de empoderamento que possibilitassem um estreitamento de suas atividades com a comunidade do seu entorno no sentido de valorização das práticas musicais clássicas.

Outro fator seria a dissolução dos valores culturais que fundamentaram a estatização das orquestras profissionais. Camila aponta que, no século XXI, houve um distanciamento das orquestras não só da sociedade, mas também dos organismos governamentais e da vinculação da música clássica orquestral a valores associados a um "potencial civilizatório". "As práticas e hábitos culturais vinculados à música clássica parecem estar sofrendo um esgotamento. A consequência é uma dissolução dos valores ligados à 'alta cultura' que fundamentaram a criação e a própria existência das orquestras profissionais", diz.

Outra questão apontada natese que leva à dissolução das orquestras profissionais públicas é a política cultural nacional das últimas décadas voltada para a criação e a manutenção de orquestras jovens, com músicos entre 15 e 29 anos de idade, e de orquestras profissionais de alto impacto. "As orquestras jovens são carregadas de contextos educacionais e vistas frequentemente como ferramentas de inserção social para ocupar o tempo ocioso do jovem de baixa renda", explica.

Outro fator seria um discurso pela busca de um padrão internacional, com relação à performance, das orquestras jovens e das profissionais. "Esse discurso da internacionalização mina a existência de orquestras que difiram desse padrão", aponta a pesquisadora do IA.

Um último fator para redução das orquestras públicas profissionais está relacionado à indústria fonográfica e ao advento das eras digitais e midiática. A tese apresenta dados que mostram como o consumo brasileiro de música clássica representa uma das categorias menos lucrativas de música no Brasil. "As gravações brasileiras de orquestras são mais realizadas mais com a finalidade de divulgação e fortalecimento do trabalho do que visando a uma receita econômica", atesta Camila.

A pesquisa lembra que a metrópole paulistana, apesar de ser um importante polo cultural, político e econômico, voltou seus teatros, músicos e regentes para um repertório europeu consagrado, sem construir caminhos para uma base que sustentasse o interesse da sociedade pela sua existência, o que poderia ter acontecido pela preparação de futuras gerações de público nas escolas ou pelo planejamento de uma real sustentação financeira de suas atividades.

"Sem programas eficientes de formação de plateias, de educação musical, de popularização de repertório e dos espetáculos, as orquestras paulistanas foram constituídas a serviço de uma elite intelectual e/ou econômica. Assim a maior parte da população não se sente representada ou prestigiada nos concertos", conta Camila. "O século XX acabou acumulando uma história de orquestras caras que executavam um repertório que não causava empatia com a maior parte da sociedade."

Nesse cenário, a pesquisa evidencia que a situação de diminuição do número de orquestras públicas não é fruto de uma crise econômica, mas de uma transformação na forma de gestão, pois elas contarão cada vez com menos subsídios dos governos, seja na esfera federal, estadual ou municipal. "As orquestras provavelmente terão, no decorrer dos próximos anos, que se aproximar de mecanismos de autogestão se quiserem sobreviver", afirma Camila.

"A independência financeira dos organismos orquestrais só acontecerá no momento que exista uma capacidade de gerenciamento por parte de seus integrantes pelo estímulo do trabalho colaborativo e da capacitação e conscientização da real situação por parte dos organismo orquestrais. Desse modo, a comunidade musical se envolveria nessas questões, não como espectadora, mas como ator das políticas públicas em sua própria comunidade", conclui a pesquisadora.

Contato da pesquisadora
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Assessoria de Comunicação e Imprensa
Portal Unesp

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