Tecnologia

contagem de gado

Pesquisa coordenada pela Embrapa para detecção e contagem de gado usando veículos aéreos não tripulados, conhecidos como vants ou drones, acaba de ser aprovada para financiamento pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto colaborativo é liderado pelo pesquisador Jayme Garcia Arnal Barbedo, da Embrapa Informática Agropecuária (SP), e foi aprovado na terceira chamada de propostas do Programa Fapesp de Pesquisa em eScience e Data Science.

A atividade de monitorar a população de gado é essencial na gestão das fazendas pecuárias. Entretanto, nas grandes propriedades que adotam a pecuária extensiva, muito comuns no Brasil, essa contagem requer tecnologia e métodos avançados. No caso das imagens de satélites, além de não apresentar resolução espacial suficiente para identificar os animais individualmente, a presença de nuvens também compromete o monitoramento.

“Os levantamentos aéreos aparecem como uma solução potencial”, explica Barbedo. Já existem algumas iniciativas sendo aplicadas em fazendas, mas ainda com várias desvantagens, como alto custo de operação, níveis de ruído elevados e risco de acidentes. Por isso, os pesquisadores querem empregar técnicas de processamento de imagens e aprendizado de máquina, aliadas ao desenvolvimento de softwares e uso de drones, buscando gerar soluções mais adequadas para o monitoramento dos animais no pasto.

Coordenada pela Embrapa Informática Agropecuária, a pesquisa tem participação da Embrapa Pecuária Sudeste (SP), da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Universidade Estadual de Campinas (FEEC/Unicamp) e das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). O projeto tem vigência de dois anos, com início em fevereiro de 2019, e recebeu recursos de cerca de R$ 175 mil que serão investidos, principalmente, na aquisição de drones e equipamentos para processamento de imagens.

Testes com câmeras 360 graus

Entre os objetivos estão o desenvolvimento de uma metodologia para agrimensura pecuária usando drones equipados com câmeras de espectro visível e a criação de um algoritmo para reconhecer e contar automaticamente o gado nas imagens capturadas. Serão investigadas duas abordagens distintas: a primeira é com o uso de uma câmera convencional e a outra com uma câmera 360 graus.

A principal diferença entre as duas metodologias é que a primeira geralmente requer múltiplos voos para cobrir grandes áreas, enquanto a segunda pode ser capaz de visualizar regiões muito maiores com um único voo, embora perdendo resolução, já que os animais estão mais distantes da câmera, de acordo com o pesquisador.

Em breve, drones estimarão saúde e peso do rebanho

O projeto busca avançar na área de ciência da computação, produzindo novos algoritmos baseados em imagens para detecção de animais e para seu manejo, com abordagem inovadora para contagem de gado. “Essa metodologia também pode ser usada no futuro para trabalhar outros aspectos do monitoramento de gado como saúde animal, medidas corporais, entre outros”, conta Barbedo.

Caberá à Embrapa Informática Agropecuária, principalmente, coletar as imagens no campo e processá-las, criando e aplicando, em conjunto com a FEEC/Unicamp, algoritmos baseados em princípios de aprendizado de máquina para detecção e contagem dos animais. Os testes de campo serão feitos com o apoio de especialistas em manejo animal na fazenda Canchim, da Embrapa Pecuária Sudeste. A pesquisadora Andrea Roberto Bueno Ribeiro, da FMU, também vai apoiar os trabalhos de manejo e estudos de comportamento animal relacionados às simulações de movimentação do gado no pasto.

Contagem do gado sem precisar reunir os animais

Conhecer o número de animais é essencial para o pecuarista fazer a gestão adequada da fazenda, contribuindo para o controle interno e a quantificação dos resultados.

Na pecuária as variações no rebanho são constantes: nascimento de animais, mortes, vendas, e até roubos. Tudo isso se reflete na hora do planejamento e na rentabilidade da atividade.

Para a contagem, o pecuarista precisa reunir os animais no pasto ou levá-los até o curral. Esse processo é complexo e exige um grande esforço. As dificuldades aumentam proporcionalmente ao tamanho da fazenda e do rebanho.

O deslocamento do gado sempre é estressante e pode afetar a produtividade. No percurso, há chances de acidentes. Além disso, o bovino passa mais tempo caminhando e deixa de se alimentar, ruminar e descansar, causando prejuízos econômicos ao produtor. O estresse reduz o ganho de peso e afeta a imunidade, deixando-o mais vulnerável a doenças.

“A ideia do projeto é tentar fazer essa contagem sem reunir os animais, reduzindo o estresse. No entanto, há algumas dificuldades. É preciso treinar a máquina para enxergar o boi e contar um por um. A primeira dificuldade é que ele se movimenta. A segunda, é que o drone precisa identificar o boi lá embaixo e saber que é um bovino, não é uma pedra ou, ainda, se tiver dois animais juntos, tem que conseguir contar dois e não apenas um. A máquina precisa aprender a analisar a imagem”, explica a pesquisadora Patrícia Menezes Santos, da Embrapa Pecuária Sudeste.

Para captar as imagens, é preciso entender o comportamento dos bovinos. Dessa forma, o plano de voo e as estratégias usadas para a captação precisam levar em consideração a rotina animal, o tipo de área da fazenda, o modelo de sistema de produção, entre outras especificidades da criação e da propriedade. A interação entre os especialistas dos dois centros de pesquisa da Embrapa vai contribuir para encontrar a melhor forma para ensinar a máquina nas avaliações.

Na fazenda Canchim, base física para os testes e captação de imagens, há vários modelos diferentes de produção, como animais nos sistemas integrados, em pastos extensivos, áreas intensivas e outras. De acordo com a pesquisadora da Embrapa, essa diversidade de condições vai ajudar a treinar a máquina. “O drone precisa de muita imagem com informações reais do que ocorre na fazenda. Tudo pode se transformar em obstáculo na hora da avaliação das imagens. Então, vamos ajudar como especialistas em produção animal”, explica Santos.

O desenvolvimento de soluções tecnológicas baseadas na aplicação de sistemas inteligentes e automatizadas às pastagens pode contribuir para moldar a pecuária do futuro, já que o processo de decisão nos sistemas de produção depende cada vez mais da análise e interpretação de dados e informações, de acordo com Patrícia. “A integração de informações sobre o clima, o solo, os animais e a pastagem cria oportunidades para o uso mais eficiente dos recursos naturais e dos fatores de produção”, afirma a pesquisadora.

Decisões sobre compra e venda de animais, uso de fertilizantes e de alimentação suplementar, além de outras práticas de manejo, podem ser orientadas a partir dessas informações, reduzindo o risco associado à atividade e aumentando a sustentabilidade dos sistemas de produção animal em pastagens. Com o avanço no campo da internet das coisas (IoT, na sigla em inglês), caracterizada pela conexão entre diversos dispositivos que coletam e transmitem dados de forma automática, abre-se a perspectiva para uma pecuária cada vez mais baseada em tecnologia digital.

Nadir Rodrigues (MTb 26.948/SP)
Embrapa Informática Agropecuária

inteligência artificial

A FAPESP e a IBM realizaram em 12 de março, no auditório da Fundação, um evento de apresentação da chamada de propostas que visa selecionar parceiros para a constituição do Centro de Pesquisa em Engenharia em Inteligência Artificial (IA).

O objetivo do novo centro, apoiado pela FAPESP no âmbito do programa Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE), será desenvolver pesquisa disruptiva, com potencial para promover avanços científicos significativos na área e com aplicações em setores industriais estratégicos. Para isso, terá financiamento de US$ 1 milhão por ano, dos quais US$ 500 mil serão aportados pela FAPESP e o mesmo valor pela IBM, por um período de até 10 anos.

“Esperamos receber propostas voltadas ao desenvolvimento de pesquisa avançada que seja mundialmente competitiva e que contemple a formação de recursos humanos em inteligência artificial. Há uma grande demanda por pesquisadores nessa área tanto no Brasil como em outros lugares do mundo”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, durante o evento.

As propostas poderão ser encaminhadas até o dia 15 de abril de 2019 por grupos de pesquisadores ligados a universidade ou instituição de pesquisa sediada no Estado de São Paulo e deverão ter uma componente básica e outra aplicada.

O programa de pesquisa do centro selecionado deverá incluir pesquisa básica para criar conhecimento competitivo internacionalmente, tendo em vista a possibilidade de aplicações em setores como recursos naturais (óleo e gás, mineração), agronegócio (inclusive genômica e biotecnologia), meio ambiente, setor financeiro e de saúde. O centro também poderá desenvolver estudos que explorem as implicações socioeconômicas da inteligência artificial nesses segmentos.

“As propostas não devem cobrir obrigatoriamente todas essas áreas. Queremos receber programas de pesquisa bem focados”, disse Luiz Nunes de Oliveira, coordenador adjunto da diretoria científica da FAPESP para Programas Especiais e Colaborações em Pesquisa.

Alguns dos focos das propostas deverão ser o desenvolvimento de algoritmos avançados para expandir as capacidades de aprendizado de máquina e aprendizado profundo (deep learning) e de novas aplicações para uso profissional da inteligência artificial em setores industriais.

Completam os temas de interesse a criação de sistemas com mais alto nível de raciocínio, a aceleração da disponibilidade de ferramentas que operem em língua portuguesa e a exploração da área para prover benefícios econômicos e sociais para um maior número de pessoas, países e empresas.

“Queremos propostas de projetos voltados ao desenvolvimento de técnicas que permitam expandir e avançar a fronteira do conhecimento em inteligência artificial, e não direcionadas à aplicação de técnicas já dominadas em problemas que até então não foram usadas”, disse Ulisses Mello, diretor da IBM Research Brasil.

O centro será a primeira instituição na América Latina a integrar a IBM AI Horizons Network, rede lançada em 2016 pela empresa para promover a integração e a colaboração com as principais universidades e instituições de pesquisa no mundo para acelerar a aplicação da inteligência artificial em algumas áreas.

Uma das instituições que integram a rede é o Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. “A rede tem possibilitado desenvolver um trabalho muito interessante e, inclusive, em parceria com outras empresas”, disse Mello.

Segundo ele, mais de 10 empresas no Brasil já manifestaram interesse em também fazer parcerias em pesquisa com o novo centro. “Será interessante discutir modelos de parceria com outras empresas para fornecer dados, pessoas e recursos que permitam expandir as pesquisas”, disse.

Aplicações industriais

De acordo com Mello, o desenvolvimento da inteligência artificial está entre as quatro áreas estratégicas de pesquisa da IBM. As outras três são a preparação de bases para o futuro da computação, a definição e otimização de cadeias de dados (blockchains) e a transformação de setores industriais por meio da ciência e da inteligência artificial.

Para continuar o desenvolvimento na área e possibilitar expandir sua aplicação industrial, será preciso potencializar avanços na percepção, raciocínio e compreensão de dispositivos computacionais para ajudá-los a lidar com tarefas complexas semelhantes às humanas. Além disso, desenvolver novos hardwares, softwares e algoritmos que tornem a inteligência artificial mais rápida, fácil e capaz de atacar problemas maiores e mais complexos.

Segundo Mello, paralelamente ao avanço da inteligência artificial, será preciso assegurar que os algoritmos não sejam tendenciosos e nem discriminem pessoas por razões de raça, sexo ou classe social na tomada de decisões, como concessão de crédito ou propostas de seguro. “Lançamos um banco de dados com mais de 1 milhão de faces para evitar treinamentos de algoritmos que possam induzir viés”, disse Mello.

No Brasil, os focos das pesquisas feitas nos laboratórios da empresa, situados em São Paulo e no Rio de Janeiro, são justamente os temas de interesse abrangidos na chamada de propostas para a criação do novo centro com a FAPESP.

No setor de óleo e gás, a IBM estabeleceu parcerias com a Shell, Repsol e Galp para usar técnicas de inteligência artificial na análise de conjuntos de dados sísmicos em 3D rapidamente, a fim de avaliar características geológicas de potenciais poços de petróleo.

No setor agrícola, os pesquisadores da empresa têm desenvolvido sistemas de análise de dados que permitirão a agricultores avaliar fatores como umidade, temperatura e riscos de pragas e doenças em suas lavouras, fazer previsões de tempo e de produção e administrar a aplicação de fertilizantes.

“Atualmente, com a pulverização de precisão é possível reduzir em até 90% a quantidade de fertilizantes em uma lavoura”, disse Mello.

Na área da saúde, a IBM tem usado ferramentas avançadas de inteligência artificial para analisar rapidamente imagens médicas e diagnosticar mais precisamente doenças.

“Um simples exame de ressonância magnética gera cerca de 10 mil imagens. Nosso objetivo é desenvolver um sistema que seja capaz de fechar o diagnóstico de um paciente com base na análise das 20 imagens mais importantes em exame desse tipo”, disse Rogério de Paula, gerente na área de Tecnologias em Inteligência Artificial para Tomada de Decisões na Indústria, no laboratório de pesquisa da IBM no Brasil.

E na área de inteligência conversacional – de conversação com computadores e sistemas inteligentes –, os pesquisadores da empresa no Brasil têm se dedicado a aprimorar programas de computador que tentam simular um ser humano na conversação com pessoas (chatbots).

"Os chatbots disponíveis hoje são baseados apenas em perguntas e respostas ou voltados a acatar passivamente ordens, sem realmente saber conversar", disse Claudio Pinhanez, gerente de inteligência conversacional no laboratório de pesquisa da IBM Brasil.

“Nosso foco em pesquisa é o que chamamos de segunda geração de sistemas conversacionais, ou seja, chatbots que sejam capazes realmente de conversar e ter uma linguagem mais rica”, afirmou.

Uma das metas dos pesquisadores é desenvolver uma tecnologia que possibilite aos humanos conversar com vários bots ao mesmo tempo e, em contrapartida, que eles também sejam capazes de falar com um maior número de pessoas simultaneamente.

“A ideia é que, ao planejar uma viagem, uma família possa falar simultaneamente com um bot de uma empresa aérea, com outro de uma agência de viagens e mais outro do serviço turístico da cidade para onde ele pretende ir, por exemplo, para decidir sobre o destino”, disse Pinhanez.

Pesquisa em inteligência artificial em São Paulo

Pinhanez disse ser ele próprio um dos “resultados” do apoio da FAPESP a projetos de pesquisa em inteligência artificial em São Paulo nas últimas três décadas. Em 1990, a Fundação concedeu uma bolsa para ele realizar um estágio de pesquisa no Japão e desenvolver um projeto de pesquisa em inteligência artificial. Na época, era professor da Universidade de São Paulo (USP).

“Naquele tempo, ninguém acreditava em inteligência artificial no meu departamento. Hoje estamos falando na criação de um centro dedicado a essa área”, disse.

Data de 1990 o primeiro projeto apoiado pela FAPESP que aborda um dos temas relacionados à inteligência artificial, as redes neurais artificiais – modelos computacionais inspirados no sistema nervoso central. E o projeto pioneiro de parceria em pesquisa na área entre universidade e empresa financiado pela FAPESP foi iniciado em 1996 por pesquisadores da Escola Politécnica da USP em conjunto com a Petrobras.

"A base construída por meio de projetos e iniciativas baseadas na iniciativa dos pesquisadores em SP nos permite agora ousar mais. O número de projetos em inteligência artificial apoiados pela FAPESP tem aumentado em diferentes modalidades de apoio, como no Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)", destacou Brito Cruz.

“Nos últimos dois anos, a FAPESP investiu R$ 30 milhões por ano em pesquisa em inteligência artificial. Não é um investimento baixo, mas pode ser maior. O acordo com a IBM para criação de um centro de pesquisa na área nos ajudará a incentivar projetos de longo prazo”, disse o diretor científico da FAPESP.

A chamada de propostas para o centro pode ser acessada em www.fapesp.br/12504. Propostas serão recebidas até 15 de abril.

Elton Alisson
Agência FAPESP

pecuaristas no controle financeiro

Acaba de ser disponibilizado gratuitamente o aplicativo Controlpec, ferramenta desenvolvida pela Embrapa Gado de Corte (MS) e parceiros que permite registrar movimentações financeiras da atividade pecuária, de corte ou leiteira, de forma ágil, fácil e simplificada.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Mariana de Aragão Pereira, o software é intuitivo e funciona de acordo com a lógica do produtor. Especialista em administração rural, ela conta que muitas propriedades que exploram a pecuária não costumam realizar um controle financeiro detalhado.

“Um dos problemas é a dificuldade em estabelecer e manter uma sistemática de coleta, processamento, análise e interpretação de dados financeiros para a tomada de decisão. Outro obstáculo é a ausência de ferramentas gerenciais de fácil manuseio”, conta a cientista, esclarecendo que a proposta do Controlpec é justamente cobrir essa demanda.

Com as perspectivas de crescimento do mercado dessas ferramentas gerenciais, Aragão e equipe decidiram transformar o Controlpec, até então disponível apenas no formado de planilhas eletrônicas, em aplicativo. Ela afirma que o controle do fluxo de caixa é o primeiro passo para o produtor conhecer a realidade financeira da sua propriedade. “Um acompanhamento executado adequadamente é meio caminho andado para calcular o custo de produção, que é mais complexo, com outros custos indiretos e variantes envolvidos”, explica.

Os empreendedores rurais Eloisa Franciscon Fernandes e Gilberto Marques Filho utilizam há anos as planilhas eletrônicas do Controlpec para gerenciar as contas de suas propriedades, situadas em Anaurilândia (MS) e Guapó (GO), respectivamente. Ambos esperam que a versão mobile apresente praticidade e mobilidade tanto para registros quanto para acompanhamento e pesquisa.

A ferramenta apresenta relatórios para cada plano de contas, assim como algumas margens econômicas, facilitando a compreensão. No demonstrativo de resultados, há a linha do tempo para cada conta, com extrato ordenado cronologicamente.

Como as finanças permeiam toda a atividade agropecuária, é possível adotar o Controlpec em qualquer atividade agropecuária, pois sua configuração é aberta. Além dos produtores, os técnicos e os consultores rurais também podem usufruir dessa solução tecnológica para controlar as finanças de diversas propriedades rurais, simultaneamente, facilitando o serviço prestado por eles.

Para a produtora Eloisa Fernandes, a possibilidade de compartilhar com os demais membros da família a movimentação financeira da fazenda de cria-recria-engorda já é um ganho. Aragão comenta que a vida do produtor se mistura com a da fazenda, inclusive as contas bancárias. “Isso, do ponto de vista gerencial, dificulta ter uma real visualização da situação. No Controlpec, a conta ‘Pró-labore’ permite separar as retiradas dos sócios (quando houver), do produtor (incluindo pro-labore, se houver) e da família (ex. escola dos filhos) das demais despesas”, exemplifica a cientista.

Planilhas de gestão com 33 mil downloads

As planilhas eletrônicas que deram origem ao aplicativo foram lançadas em 2004 pelo pesquisador Fernando Paim e pelo analista aposentado Eduardo Simões, especialistas em economia rural. Desde 2012, quando passou a ser monitorado, mais de 33 mil downloads do Controlpec na versão Excel foram registrados.

Paim recorda que Simões contribuiu com sua visão prática de uma propriedade rural e ele com os conceitos financeiros. Assim como no modelo atual, a proposta na época foi trazer um instrumento prático e útil para o produtor.

Ao longo de décadas, Paim acompanhou o comportamento da atividade agrícola e reforça que o controle financeiro deixa o produtor mais próximo da realidade da sua fazenda e exige dele disciplina e persistência. “Isso garantirá o futuro do seu negócio”, declara.

O desenvolvimento da solução

Essa versão do Controlpec é uma aplicação web progressiva, PWA (Progressive Web Application), que tem como principal característica oferecer ao usuário a mesma experiência de uso de um aplicativo móvel nativo. Entre as vantagens é possível sistematizar a coleta e inserção de dados em tempo real. Os registros podem ser em desktops, notebooks e em dispositivos móveis (tablets e smartphones) de qualquer modelo, marca ou sistema operacional.

“O primeiro acesso necessita de uma conexão de internet, mas a partir daí, o aplicativo funciona off-line. As informações são gravadas no celular ou computador da pessoa, mas somente são sincronizadas na nuvem se ela estiver registrada. Devido à natureza do Controlpec decidimos que o registro é obrigatório”, lembra o analista de tecnologia da informação (TI) da Embrapa Camilo Carromeu.

A funcionalidade atua ainda como um backup, de fácil restauração, caso o dispositivo tecnológico em uso tenha sido trocado, perdido, roubado ou danificado. O acesso é feito por uma conta no Google ou Facebook (esta última em implementação), com adesão a uma política de uso, seguindo orientações legais, completa o especialista.

Para concluir o projeto, Aragão e Carromeu firmaram uma parceria inédita com as empresas High Tech e Perseu Tecnologia, por meio de um contrato de cooperação técnica. Os analistas da Perseu disponibilizaram a versão atual, mas já trabalham com novas funcionalidades a serem introduzidas nos próximos upgrades da versão, como a inserção de gráficos, por exemplo.

Para o diretor da Perseu e analista de sistema, Alison Moura, os ganhos para a empresa desenvolvedora foram além da parte técnica, pois envolveram as áreas gerencial e jurídica. O diretor da escola de programação High Tech, Virmerson Santos, acredita que a parceira proporcionou aos alunos experiência prática a partir de um problema real.

Os desenvolvedores apostam que o aplicativo Controlpec permitirá ao produtor conhecer melhor o seu padrão de gastos e receitas e, consequentemente, planejar melhor seu orçamento, intervindo quando necessário. Assim fará uma gestão mais consciente de sua empresa rural.

Aplicativo
Aplicativo permite registrar e controlar todas as operações financeiras da pecuária

Dalízia Aguiar (MTb 28/03/14/MS)
Embrapa Gado de Corte

aplicativo Cria Certo

Qual o valor a ser pago por um touro melhorador? O que é mais viável economicamente, a monta natural ou a inseminação artificial? Perguntas como essas, feitas usualmente por pecuaristas e técnicos, serão agora respondidas com mais rapidez e eficiência com o auxílio do Cria Certo. Desenvolvido pela Embrapa Gado de Corte (MS) em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o aplicativo simula e calcula os custos e benefícios de técnicas reprodutivas adotadas no Brasil, dando suporte à tomada de decisão.

“Algumas vezes, o produtor de gado de corte negligencia a fase de cria. No entanto, além de ter custo elevado, ela traz forte impacto ao sistema como um todo. Para abordar esse problema, foi desenvolvido o Cria Certo, uma ferramenta de pecuária de precisão que ajuda no planejamento da propriedade”, conta a especialista em sistemas de produção Thais Basso Amaral, pesquisadora da Embrapa e uma das idealizadoras da proposta.

aplicativo EmbrapaO aplicativo reúne quatro simuladores com os métodos de reprodução mais relevantes atualmente: monta natural, inseminação artificial em tempo fixo (IATF) mais repasse com touro, duas inseminações em tempo fixo mais repasse com touro e três inseminações em tempo fixo. Amaral explica que ao longo de 15 anos, as práticas reprodutivas na pecuária mudaram. Em 2003, 5% do rebanho era inseminado. Hoje, o índice está em torno de 12%, sendo que cerca de 80% por meio da IATF. Essas informações foram consideradas ao projetar o software com essas três possibilidades de IATF.

Administração da propriedade é fundamental

“A gestão exige que você olhe o sistema de produção completo. As fases: cria, recria e engorda se conectam e interagem para um resultado final positivo”, complementa Fernando Paim Costa, socioeconomista da Embrapa e participante do projeto com Amaral, desde 2003, quando o Cria Certo tinha o formato de planilhas eletrônicas.

Na época, essas planilhas com os cálculos dos custos de diferentes tecnologias aplicadas à reprodução bovina eram utilizadas por Amaral, Costa e o pesquisador aposentado Eduardo Simões Correa em seus estudos e publicações na Embrapa. Para maior adoção das planilhas pelo setor produtivo, tornando-as uma ferramenta de gestão, os pesquisadores as reestruturaram e embarcaram em uma plataforma móvel, aproveitando a popularização dos dispositivos móveis no meio rural.

A ferramenta calcula também custos totais do touro e do método reprodutivo, e também apresenta esse número por prenhez. Produtores que usam touros melhoradores podem saber o ganho adicional em reais em função do valor genético do animal utilizado. Outra funcionalidade é a comparação de simulações que permite ao usuário confrontar os índices comuns de simulações de tipos diferentes.

Para melhor aproveitamento do software, os pesquisadores recomendam uma gestão mínima da propriedade, com dados da fazenda, índices zootécnicos do rebanho, gastos com alimentação e medicamentos entre outros. “A questão é aperfeiçoar o processo de decisão com ajustes mais certeiros a partir das informações”, comenta Costa. O Cria Certo dispõe de valores de referência para cálculos e comparações, caso o usuário queira apenas perspectivas ou não tenha dados da propriedade. “Será um cenário simulado e não a realidade daquele estabelecimento rural”, esclarecem os idealizadores. De qualquer forma, os cientistas acreditam que quem utilizar a ferramenta enxergará a pecuária de corte como uma empresa.

Amaral e Costa revelam que hoje não há uma estrutura de cálculo pronta. A decisão é feita pela indicação do técnico ou experiência prévia do produtor. “Alguns técnicos usam uma planilha para calcular custos e benefícios. Porém, na maioria das vezes, esses cálculos não são feitos, principalmente por causa de sua complexidade, e a decisão acaba sendo tomada de forma empírica”, afirmam.

Por dentro do aplicativo

O acesso gratuito é feito por uma conta no Google ou Facebook, com adesão a uma política de uso, seguindo orientações legais. O analista de TI da Embrapa Camilo Carromeu enfatiza que o usuário não insere novos dados na internet, ele somente disponibiliza para a Embrapa informações como nome, correio eletrônico, foto e gênero, que serão armazenadas nos servidores da Empresa.

A Inseminação Artificial por Tempo Fixo

A IATF permite o melhor planejamento dos acasalamentos e, consequentemente, dos partos e demais manejos e atividades da fazenda. “Atualmente, somente cerca de 10% das vacas emprenham pela técnica. É pouco pelo seu potencial”, observa a pesquisadora da Embrapa Alessandra Nicácio. Os números explicam-se, pois há propriedades rurais nas quais a estação de monta não acontece; outras trabalham por longos períodos, cinco ou seis meses de duração, o que não é aconselhado pelos especialistas; e há estabelecimentos que desconhecem os benefícios da ferramenta, por falta de informação ou por considerá-la de alto custo.

Contudo, a IATF traz vantagens, de acordo com a pesquisadora: melhor controle zootécnico, realização de diferentes cruzamentos, favorecimento de seleção e melhoramento genético, escolha da data do parto, organização dos manejos, eliminação da observação do cio, diminuição de riscos e concentração de concepções.

O início do retorno econômico acontece, em média, dois anos após o investimento.

Ainda é dada a condição de registro ou não ao entrar no app. “Com registro, os dados são salvos e armazenados para acesso e sincronização em qualquer outro dispositivo móvel, web ou computador”, explica Carromeu. Para Thaís Amaral, o ganho do registro evidencia-se quando o técnico veterinário, que atende várias fazendas que fazem IATF, tem nas mãos um banco de simulações e custos personalizado e amigável para mostrar a cada cliente.

A lógica do Cria Certo é diferente da dos demais aplicativos lançados pela Embrapa Gado de Corte. Ele usa a tecnologia Progressive Web App (PWA), criada pelo Google LLC, que roda no dispositivo móvel em tela cheia e sem ocupar espaço no smartphone ou desktop. O PWA não serve para todos os apps, depende da dinâmica da atividade, e tem uso indicado para simuladores, informativos e catálogos.

aplicativo Embrapa

“Cada desenvolvedor tem seu código nativo, sua linguagem. A cada versão Android e iOS de um determinado aplicativo precisávamos reiniciar a programação. Era um novo aplicativo, começado do zero. Com o PWA, o usuário consegue ter aplicações web, instalar o site como um app no Android, Windows e iOS”, relata Carromeu.

Outra vantagem é a sincronização das informações, inclusive de forma off-line, bastando um único acesso e registro, assim como a conexão com os sensores dos celulares e tablets, como leitor biométrico, acelerômetro e GPS. Por fim, a tecnologia permite o compartilhamento de links dos apps por meio de plataforma de mensagens instantâneas.

Para manter a evolução do Cria Certo, os pesquisadores estão em busca de parceiros externos, como startups, para atualizar e manter a lógica do software, futuramente.

Nesse desenvolvimento, a equipe teve o apoio da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect) e Geneplus Consultoria Ltda., além dos analistas de Tecnologia da Informação (TI) do Please - Laboratório de Pecuária de Precisão, Meio Ambiente e Engenharia de Software da Faculdade de Ciência da Computação da UFMS, que desenvolve soluções na área de TI e mantém parceria com a Embrapa.

Dalízia Aguiar (MTb 28/03/14/MS)
Embrapa Gado de Corte

sistema de exploração de petróleo e gás

A FAPESP e a Equinor (antiga Statoil), empresa norueguesa do setor de energia, com atuação no Brasil nas áreas de óleo e gás e energia solar, lançaram nesta terça-feira (19/02), em um evento na FAPESP, o Centro de Pesquisa em Engenharia em Gerenciamento de Reservatórios e de Produção de Petróleo e Gás (ERC-RPM, na sigla em inglês).

O novo centro será sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e terá o objetivo de buscar soluções inovadoras para otimizar a produção e a eficiência de poços de petróleo, recuperar reservatórios e melhorar o gerenciamento da água extraída junto com o petróleo nas atividades de perfuração e extração.

Para constituí-lo, a FAPESP e a Equinor lançaram em setembro de 2016 uma chamada de propostas no âmbito do programa Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE). O projeto selecionado foi de autoria de pesquisadores vinculados à Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp.

“O acordo da FAPESP com a Equinor para a criação desse novo centro de pesquisa contempla um dos objetivos da Fundação, que é o de promover o empreendedorismo tecnológico e áreas de pesquisa relacionadas à inovação, facilitando a relação entre universidades e empresas”, disse Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, durante o evento.

O centro terá três linhas de pesquisa: otimização de produção, recuperação avançada de óleo e gerenciamento de água (water handling). Os projetos serão realizados por pesquisadores e estudantes de pós-graduação da Unicamp em colaboração com colegas da Equinor e de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, de áreas como Matemática, Ciência da Computação, Engenharia Mecânica e Geologia, entre outras.

“A Equinor tem uma relação de longo prazo com as principais universidades da Noruega e outros países, como o Brasil, com quem estabelecemos algumas parcerias nos últimos 10 anos a fim de encontrar as melhores soluções para os desafios energéticos e industriais”, disse Margareth Øvrum, presidente da empresa no Brasil.

“Estou confiante de que esses 10 anos de trabalho integrado, em estreita colaboração com universidades, deixarão marcas positivas em termos de novos desenvolvimentos e soluções inovadoras para a indústria de petróleo”, disse Øvrum. 

O acordo terá duração de 10 anos, sendo que a FAPESP e a Equinor liberarão, meio a meio, recursos da ordem de R$ 25 milhões nos primeiros cinco anos e o mesmo valor no quinquênio seguinte. Outra parcela virá da Unicamp como contrapartida econômica, na forma de salários de pesquisadores e de pessoal de apoio, infraestrutura e instalações.

“A Unicamp está comprometida em promover a cooperação em pesquisa com o setor industrial em muitos segmentos estratégicos, e tem criado os meios institucionais para transformar a pesquisa feita na universidade em tecnologia e consolidar a inovação”, disse Marcelo Knobel, reitor da Unicamp.

“A criação desse novo centro é um passo fundamental para consolidar a cooperação de alto nível entre a indústria e as universidades no Estado de São Paulo”, avaliou.

Programa bem-sucedido

O ERC-RPM vai operar nos mesmos moldes de outros sete Centros de Pesquisa em Engenharia em operação apoiados pela FAPESP e pelas empresas GlaxoSmithKline, Peugeot-Citroën, Shell, Natura e Embrapa.

Um dos objetivos desse programa de apoio à pesquisa da FAPESP, lançado em 2014, é fomentar e facilitar a interação em pesquisa entre universidades e indústrias situadas não só em São Paulo, mas também em outras regiões do país e do mundo.

“O programa Centros de Pesquisa em Engenharia da FAPESP tem atraído muito interesse das empresas e universidades. É um dos maiores programas de fomento à colaboração em pesquisa entre universidades e indústrias no país hoje”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

Presente no Brasil desde 2001, com foco na exploração de petróleo e gás natural offshore, um dos objetivos da Equinor com o novo centro é desenvolver tecnologias para extrair óleo pesado de campos como o de Peregrino, da bacia de Campos, no Rio Janeiro, onde iniciou sua operação em 2011.

Um dos desafios para a exploração desse campo de óleo pesado, que representa a maior operação internacional offshore da empresa, é estabelecer como serão perfurados os poços para injetar fluidos, como água e CO2, de modo a manter um nível de pressão suficiente no reservatório para extrair o petróleo.

Outro desafio é desenvolver sistemas de produção, compostos por máquinas e bombas, instaladas nos poços e no fundo do mar, para injetar fluidos e manter a pressão necessária para transportar o petróleo para a superfície.

“O óleo pesado desse campo precisa dessa energia adicional para passar por válvulas e tubulações e chegar à superfície, onde será separado e tratado”, explicou Antonio Carlos Bannwart, professor da Unicamp e diretor do centro, à Agência FAPESP.

Outro interesse da empresa com o novo centro é desenvolver tecnologias para exploração do pré-sal do campo de Carcará, na bacia de Santos, descoberto em 2012 e que a Equinor adquiriu a licença para exploração em 2016.

A empresa pretende iniciar a produção de óleo desse campo entre 2023 e 2024. “Estamos nos movendo para áreas em que não temos muita experiência. Essa é umas das razões dessa parceria para a criação desse novo centro. Precisamos de novas tecnologias para resolver alguns desafios tecnológicos”, disse Ruben Schulkes, gerente de pesquisa e tecnologia da Equinor.

Ao contrário de reservatórios de óleo pesado, como o de Peregrino, os do pré-sal não necessitam de bombas para chegar à superfície, uma vez que já têm alta pressão e o óleo não é tão viscoso.

O desafio tecnológico, nesse caso, é controlar a pressão para extração do óleo e estabelecer estratégias de aproveitamento da enorme quantidade de gás que vem junto com ele, explicou Bannwart.

“É preciso que se defina como o país irá explorar e aproveitar a enorme quantidade de gás que há no pré-sal, que é suficiente para abastecer o Estado de São Paulo”, disse o pesquisador.

Também participaram da cerimônia de lançamento do novo centro de pesquisa Eduardo Moacyr Krieger e Fernando Menezes de Almeida, respectivamente, vice-presidente e diretor administrativo da FAPESP, e Patricia Ellen da Silva, secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo.

“Esse projeto do novo centro de pesquisa representa muito a nova filosofia que gostaríamos de implementar em São Paulo, que é a de fomentar o desenvolvimento econômico, a produtividade e a competitividade do estado, por meio de investimentos em ciência, tecnologia e inovação”, disse Silva.

Elton Alisson
Agência FAPESP

geração de energia elétrica

A geração de energia elétrica e a produção de biofertilizantes a partir dos dejetos da atividade pecuária já é uma realidade na bovinocultura de leite no Brasil. Depois de algumas experiências frustradas nas décadas de 1970 e 1980, os produtores que adotam sistema de confinamento, no qual o gado é criado em grandes estábulos, passaram a gerar a própria eletricidade consumida na fazenda e, em alguns casos, até a vender o excedente para as empresas de distribuição.

A adoção da tecnologia ainda é baixa entre os produtores de leite, mas o pesquisador Marcelo Henrique Otenio, que coordena os estudos sobre biodigestores na Embrapa Gado de Leite (MG), diz que o uso do biogás está em franca expansão no setor e apresenta retornos financeiros positivos. “Nós reunimos uma equipe de pesquisa multidisciplinar de diversas instituições e nossos estudos indicam ser economicamente viável o uso de biodigestores na pecuária de leite para sistemas de produção em free stall (sistema de produção de leite com as vacas estabuladas) com mais de oitenta vacas”, revela Otenio.

Produtor ganha energia, água e biofertilizantes

Ainda segundo o pesquisador, o produtor pode obter ganhos de três formas: pela produção do biogás, que irá abastecer um motor e gerar a energia elétrica; pela reutilização da água de lavagem do piso do estábulo, que carreia os efluentes para o biodigestor; e pela produção do biofertilizante resultante do processo (veja quadro no fim desta matéria).

O Brasil é o quarto maior importador de fertilizantes do mundo. O País importa cerca de 75% do total desses insumos aplicados nas lavouras. Além disso, os adubos químicos são insumos caros e poluentes. Com a utilização da matéria orgânica oriunda do biodigestor, o produtor agrega valor ao negócio, além de dar uma destinação a outro material potencialmente poluente: os dejetos bovinos. Otenio informa que, na cultura da cana, o biofertilizante substitui 100% do adubo nitrogenado e, na lavoura de milho, 60%. A Embrapa Gado de Leite também está fazendo testes com a fertirrigação do capim-elefante BRS Capiaçu. Esse biofertilizante também é importante na recuperação de áreas degradadas, pois atua como um condicionante do solo, recuperando sua matéria orgânica.

Os maiores geradores do Brasil

A utilização de biodigestores para transformar os dejetos oriundos dos sistemas de produção animal em biogás é uma prática antiga, mas a pesquisa científica está tornando-a cada vez mais eficiente. Na agropecuária brasileira, os produtores de suínos são os que mais adotam a tecnologia. Segundo o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás), esse setor é responsável pela produção de 14% do biogás nacional. Aterros sanitários, indústrias de alimentos e bebidas e lodo de esgoto respondem por 51%, 25% e 6%, respectivamente. A pecuária de leite, com outras atividades, fica com os 3% restantes.

Agregação de valor e sustentabilidade ambiental

O professor Jorge Lucas Júnior, do campus de Jaboticabal (SP) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), instituição parceira da Embrapa nas pesquisas com biodigestores,  explica que a maior adoção da tecnologia na suinocultura se deve ao fato de os dejetos provenientes dos suínos terem maior potencial fertilizante e energético do que os de bovinos. Por outro lado, ele conta que uma vaca produz muito mais estrume do que um porco. “Há, por isso, um equilíbrio e os produtores de leite podem ser tão eficientes quanto os suinocultores”, afirma o professor ressaltando que, nas duas culturas, a tecnologia é uma grande aliada do meio ambiente.

A biodegradação de dejetos de origem animal produz metano (CH4), entre outros gases. O metano tem um potencial 21 vezes maior de provocar efeito estufa se comparado ao dióxido de carbono (CO2). A queima do CH4 com o oxigênio é a energia que faz um motogerador funcionar e produzir eletricidade. O resultado dessa queima é a emissão de vapor d’água e CO2 menos prejudicial para a atmosfera, quando comparado ao metano. O professor da Unesp diz que, com o surgimento do mercado de carbono, a escala de implantação de biodigestores aumentou, incentivando o desenvolvimento de modelos mais baratos e fáceis de operar.

A confluência de tecnologias mais eficientes, agregação de valor e proteção ambiental impulsionam o mercado. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), estima que, em 2030, o biogás poderá representar o mesmo volume de energia distribuída que a fotovoltaica (energia solar) e o setor agrícola terá uma importante participação nesse volume.

Já existem diversos casos de sucesso operando no presente. A Fazenda Bom Retiro, em Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, é um deles. Os dejetos de mil vacas em ordenha e outros mil suínos em terminação alimentam três biodigestores que geram R$ 30 mil mensais em energia elétrica. Cerca da metade da quantidade gerada é transformada em “crédito de energia” pela distribuidora e pode ser vendida para outros consumidores (esse processo é chamado de geração distribuída), a outra metade é usada para abastecer a propriedade.

Experiências do passado

Em meados da década de 1970, o Governo Federal incentivou o uso de biofertilizantes por parte dos pecuaristas. Na época, foi criado o Programa Nacional de Energia Alternativa. Algumas unidades da Embrapa, entre elas a Embrapa Gado de Leite, iniciaram pesquisas sobre o tema para popularizar o uso de biodigestores. O chefe-adjunto de Pesquisa & Desenvolvimento da Unidade, Pedro Arcuri, que na época trabalhava em um dos projetos, lembra que a demanda do governo visava dar uma reposta para a crise do petróleo, que elevou o preço do combustível.

Naquela época, dois modelos de biodigestores propostos como tecnologias para pequenos produtores rurais foram implantados no Brasil: o chinês e o indiano. Segundo Arcuri, os modelos tinham baixa eficiência, pois necessitavam de mais esterco para produzir biogás. A Embrapa Gado de Leite montou uma unidade demonstrativa com o modelo indiano, de fácil implantação e simplicidade na operação. A unidade demonstrativa simulava uma pequena fazenda na qual fogão, geladeira, chuveiro, lampião, bomba de água e uma picadeira funcionavam com a energia do biogás.

Produção de biogás otimizada

Desde 2011, a Embrapa vem realizando pesquisas com dejetos de outras atividades econômicas que podem potencializar o uso dos biodigestores na pecuária de leite. Foram instalados na sede da Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora (MG), 12 biodigestores em escala laboratorial que medem a capacidade de geração de energia dos dejetos bovinos misturados a outros resíduos. Uma doutoranda, quatro mestrandos e seis alunos de graduação, além da equipe de suporte, como analistas e profissionais de campo da Embrapa, estão envolvidos diretamente nos trabalhos.

Segundo o líder do projeto, Marcelo Otenio, cervejarias e laticínios produzem resíduos de difícil tratamento. Os pesquisadores testam, então, o funcionamento dos biodigestores com diferentes percentuais de lodo de estação de tratamento de cervejarias, soro de ricota e efluentes da pecuária. “Queremos saber quanto o biodigestor de efluentes bovinos pode suportar e manter-se produtivo com a mistura desses resíduos”, diz Otenio.

O que a Embrapa pretende é desenvolver um protocolo de codigestão. A partir daí, será possível habilitar um produtor de leite a vender o serviço de biodigestão para essas indústrias, utilizando a capacidade ociosa dos equipamentos instalados. Em outras palavras, as cervejarias e laticínios, em parceria com produtores de leite, transformarão um importante problema ambiental em eletricidade. Otenio informa que os resultados preliminares do projeto são bastante positivos e viabilizam a codigestão.

“Recebemos um grande número de extensionistas e produtores interessados, mas não havia linhas de crédito para implantar os biodigestores e, na prática, poucos produtores acabaram adotando a tecnologia”, relembra. Ele conta ainda que, mesmo os que adotaram, acabaram tendo problemas. Arcuri explica por que: “Uma das grandes dificuldades era a adaptação dos equipamentos, que não eram fabricados para funcionar com biogás”. Era necessário instalar dutos para levar o gás até fogões, chuveiros e motores que geravam energia para as máquinas e eletrodomésticos. Além disso, o gás sulfídrico (um dos subprodutos do processo) corroía os equipamentos, que tinham sua vida útil reduzida. Com todos esses obstáculos, os projetos com biogás se encerraram em meados dos anos 1980 até serem resgatados em 2011.

Segundo Arcuri, os antigos problemas foram resolvidos. O modelo de biodigestor que está sendo implantado atualmente é mais eficiente e o Brasil já possui tecnologia própria na fabricação dos motores abastecidos com biogás. Para o gás sulfídrico, que oxidava aparelhos domésticos e máquinas, foi adaptado um filtro, separando-o do metano. Os pesquisadores têm dados dos resultados de várias pesquisas que comprovam a sustentabilidade da tecnologia no contexto atual, pois diferentemente dos anos 1970 e da crise do petróleo, há na sociedade uma cultura que preza o conservacionismo e a proteção do meio ambiente, o que viabiliza tecnologias voltadas para a mitigação de gases de efeito estufa.

Além disso, as propriedades leiteiras são muito mais dependentes da eletricidade do que eram há quatro décadas, quando a ordenha manual era comum mesmo em grandes fazendas e os latões de leite esperavam no tempo para serem recolhidos pelo caminhão. Hoje, há muita automação e o armazenamento do leite em tanques de resfriamento é uma exigência legal. Se faltar energia por algumas horas na propriedade, pode-se perder a produção de alguns dias. O biodigestor proporciona também o conforto de se ter estábulos livres de moscas e odores, uma grande vantagem para quem tem que lidar diariamente com o rebanho.

Por fim, o problema dos recursos para produção de biogás também foi resolvido. Há diversas linhas de crédito no País para financiar projetos de energia e tecnologias sustentáveis. Uma delas é o Programa ABC, para apoiar a agricultura de baixa emissão de carbono, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financia até 100% do projeto, com taxas de juros a partir de 8% ao ano. Algumas linhas possuem prazo de carência de até três anos, tempo que os pesquisadores consideram suficiente para que o biodigestor pague o investimento e comece a gerar lucros.

Como funciona um biodigestor modelo canadense

O biodigestor modelo canadense para um sistema de cerca de 200 vacas custa cerca de R$ 300 mil reais. O equipamento completo é composto, resumidamente, por três tanques construídos em um nível mais baixo que o estábulo:

- tanque de equalização – que recebe os dejetos do estábulo, homogeneíza o efluente e regula a vazão do sistema;

- tanque principal (gasômetro ou o biodigestor propriamente dito) – que contém o substrato para a fermentação e produção do biogás e é coberto por uma manta de PVC para reter o biogás produzido; e

- tanque de saída ou de estabilização – que receberá os resíduos do tanque principal e será usado na fertirrigação.

Ainda compõem o sistema uma caixa de areia (tanque que separa a areia que vem do estábulo, evitando que ela entre no tanque principal), uma peneira separadora de sólidos (necessária nos sistemas de produção de leite devido ao alto teor de fibra presente na dieta bovina), um motogerador (motor de caminhão adaptado para utilizar o biogás como combustível e movimentar o dínamo que produzirá a eletricidade) e um painel de distribuição de energia.

O piso do estábulo, feito de cimento e com um pequeno desnível para a água correr, deve conter ranhuras para facilitar o fluxo do líquido. Com a lavagem do estábulo, o efluente passa pelo tanque de equalização e segue para a peneira separadora de sólidos. Na sequência, vai para a caixa de areia, que separa os sólidos remanescentes, para depois chegar ao tanque do biodigestor.

No biodigestor, ocorrem reações químicas que transformam a biomassa em metano e outros gases. Com uma concentração acima de 50% de metano, o biogás já é combustível para alimentar o motogerador. A energia gerada é recebida pela rede interna, para uso local, ou segue para o painel de distribuição para que seja feita a geração distribuída.

Restam do processo o material sólido, que passou pela peneira separadora, e o efluente líquido gerado pelo biodigestor. O primeiro será compostado e transformado em adubo orgânico. O segundo é utilizado como biofertilizante na fertirrigação.

Rubens Neiva (MTb 5445/MG)
Embrapa Gado de Leite

Grupo da USP e do King’s College

Um grupo de 35 mil idosos de Guarulhos será entrevistado a partir de abril a fim de testar o custo-benefício de um protocolo de diagnóstico e tratamento da depressão em pessoas com mais de 60 anos.

O estudo é realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do King’s College London, do Reino Unido, financiados pela FAPESP e pelo Medical Research Council.

“Estamos iniciando o ensaio clínico randomizado. Há uma fase de recrutamento muito longa, porque precisamos de mais de 1.400 pessoas. Levando em conta que a prevalência de depressão é de aproximadamente 10% da população, para encontrar esse número de pacientes precisamos entrevistar pelo menos 10 vezes mais”, disse Ricardo Araya, professor do King’s College e um dos responsáveis pela pesquisa.

O estudo foi apresentado na FAPESP Week London, realizada nos dias 11 e 12 de fevereiro de 2019.

No Brasil, a pesquisadora responsável pelo projeto é Marcia Scazufca, professora da FMUSP. Scazufca e Araya já tinham realizado outro projeto em conjunto que serviu de base para o novo estudo.

No trabalho anterior, o grupo desenvolveu o programa experimental de assistência a idosos com depressão, cujo custo-benefício será testado agora. Nos cinco meses da intervenção, composta de visitas às casas de pacientes previamente cadastrados, 87% apresentaram melhora significativa nos sintomas, chegando mesmo a reverter o quadro de depressão.

O projeto serviu ainda para treinar as equipes de agentes comunitários de saúde e para o desenvolvimento do aplicativo, que interage com os idosos usando um tablet.

“Chegamos à conclusão de que a plataforma tecnológica funciona. E há uma eficiência de ao menos 11% comparando as pessoas que usaram e que não usaram. Isso é significativo. Se pensarmos que 10% da população tem depressão, excluindo as crianças, temos potencialmente 12 milhões de brasileiros que poderiam se beneficiar com a plataforma”, disse Araya à Agência FAPESP.

O aplicativo, que recebeu o nome ProActive, foi concebido no Hospital das Clínicas da FMUSP para ser usado na Estratégia Saúde da Família do Sistema Único de Saúde (SUS), em que o trabalho é realizado por equipes de médico, enfermeiro, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde, treinados para liderar a abordagem e realizar os primeiros atendimentos em domicílio.

Nele são usadas técnicas simples de psicoeducação e de ativação de comportamentos, consideradas efetivas para o tratamento da depressão. Uma delas consiste em apresentar ao paciente como diferentes atitudes diante dos sintomas da depressão podem ajudá-lo a se sentir melhor ou piorar o quadro (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/24572/).

Agora, com mais voluntários, será possível medir quão efetivo seria o uso da plataforma numa população maior e se o custo seria viável para aplicação no SUS.

“A questão-chave é que não há profissionais especializados para atender toda essa população. Por isso, uma ferramenta como essa, caso se mostre viável, será positiva para a população brasileira”, disse Araya.

Todas as notícias e vídeos sobre a FAPESP Week London estão disponíveis em: www.fapesp.br/week2019/london.

André Julião
Agência FAPESP

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A Associação Brasilieira de Produtores de Milho - Abramilho realiza nesta quarta-feira, 20/02, às 9h, na sede da Associação em Brasília, um Encontro Técnico com a participação dos produtores, representantes da indústria e da pesquisa, tendo como objetivo a troca de experiência para aplicação de tecnologias e desenvolvimento de produtos e processos com resíduos da cadeia produtiva e beneficiamento do milho.

Está na programação do debate a produção de biogás (energia elétrica e veicular) a partir da biomassa do milho em ciclo sustentável, tema que será apresentado pelo presidente da Abiogás, Alessandro Gardemann;  da Datagro, Plinio Nastari; da Castrolanda, Vinicius Fritsch; e pelo produtor rural Jan Haasjes.  Também será debatido o tema Etanol de Milho no Brasil (em especial do Mato Grosso), por Glauber Silveira da Arefloresta/Abramilho. A terceira temática será abordada por Angelo Pedrosa, da Cargill, sobre o milho na indústria brasileira. Na sequência, Jadyr Oliveira, da Prozyn, irá falar da produção de enzimas e usinas hídricas de cana e milho. Para finalizar a rodada de discussão, o pesquisador Félix Siqueira, da Embrapa Agroenergia abordará as alternativas tecnológicas e econômicas do milho.

Na sua apresentação, Félix irá enfatizar o modelo de biorrefinarias baseado em processos fermentativos para a obtenção de bioprodutos de valor agregado, por meio da integração dos sistemas já existentes.
São diversos os resíduos do milho, entre eles o sabugo, a palha, a quirera, as cascas do polimento/beneficiamento do grão, etc., que podem servir de substrato para o cultivo microbiano (fungos, bactérias,
leveduras), podendo assim gerar produtos tais como enzimas, proteína microbiana, ácidos orgânicos, monossacarídeos (açúcares), transformando passivos ambientais e ativos financeiros.

Félix comenta que o milho, por ser uma commodity, varia o preço. “Discutir em um cenário nacional alternativas para a cadeia produtiva do milho, desde a produção até os usos de seus resíduos, como o
biogás, etanol, enzimas, etc., é fundamental para a geração de novas divisas financeiras. Será importante estarmos como unidade de pesquisa neste evento promovido pela Abramilho.

Paulo Bertolini, diretor da Abramilho e produtor rural no Paraná, conta que a produção da cultura dobrou nos últimos 10 anos para 93 milhões de toneladas. Ele explica que o Brasil um potencial produtivo beirando
200 milhões de toneladas/ano sem abrir novas áreas agrícolas e por isso precisamos começar a pensar como vamos escoar e utilizar melhor esses produtos dentro do Brasil para agregar valor. O milho é conhecido normalmente como matéria prima de ração animal, mas sua cultura propicia centenas  de utilidades na indústria, na produção de energia, de produtos como o plástico biodegradável, entre tantos outros, como nas cervejarias, na indústria alimentícia e no artesanato. “A palavra-chave é agregar valor”, ressalta Bertolini.

Ele destaca a importância do debate. “O grande desafio como entidade é entender melhor essas oportunidades. Nosso objetivo é trazer para a Abramilho tudo o que se pode fazer com o milho, tanto do produto quanto
dos resíduos. Para isso temos que chamar os especialistas para entender e depois levar para todos os produtores e negociar em pautas governamentais”, conclui o diretor.

Jornalista responsável:
Daniela Collares (MTb 114/01)
Embrapa Agroenergia

inteligência artificial

Nos últimos anos começaram a ser criados em diferentes metrópoles mundiais, como Nova York e Toronto, centros voltados a promover pesquisas em inteligência artificial por meio da colaboração entre os setores acadêmico e privado. São Paulo acaba de ganhar uma instituição desse gênero.

Um grupo de pesquisadores de oito universidades paulistas, em parceria com empresas e startups de diversos setores, lançou terça-feira (26/02) o Advanced Institute for Artificial Intelligence (AI2).

O principal objetivo do instituto é promover a interação de pesquisadores dessa área – dedicada a buscar métodos ou dispositivos computacionais que possam permitir ou multiplicar a capacidade de resolver problemas – para explorar aplicações que possam ter impactos socioeconômicos relevantes.

A fim de promover a interação entre pesquisadores e desenvolvedores atuantes em diferentes áreas de aplicação da Inteligência Artificial, o AI2 terá uma rede de espaços compartilhados de trabalho (coworking) nas instituições participantes, conectados por um sistema de videoconferência.

“A ideia é que o meio acadêmico entre com a experiência em pesquisa fundamental em inteligência artificial e, em contrapartida, o setor privado traga problemas desafiadores e o suporte financeiro para que ataquemos, em conjunto, projetos com impacto socioeconômico relevante”, disse Sérgio Novaes, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e um dos idealizadores do AI2, durante a cerimônia de lançamento do instituto.

Inicialmente, integram o consórcio pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp), Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Paulo (Unifesp), Federal do ABC (UFABC) e Presbiteriana Mackenzie, além do Centro Universitário FEI e da Escola Superior de Engenharia e Gestão (Eseg).

Entre os parceiros do setor privado estão a IBM, a Intel, a Petrobras, o Grupo Fleury e a Serasa Experian. A iniciativa está aberta à participação de outros parceiros do setor empresarial e de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior.

Durante o lançamento do instituto, foi realizado um workshop no Núcleo de Computação Científica da Unesp, em São Paulo, para a apresentação de oportunidades de colaboração.

“Pretendemos facilitar a interação entre a academia e o setor privado para o desenvolvimento de projetos em inteligência artificial”, afirmou Novaes.

Uma das primeiras empresas a se associar ao instituto, a Serasa Experian anunciou que concederá três bolsas de pós-doutorado para pesquisas sobre dados alternativos, tecnologias de conversação e crédito.

“Nosso interesse é adquirir por meio de tecnologias de aprendizado de máquina dados que são relevantes para as decisões de consumo, desde como os consumidores escolhem um produto até como financiam suas compras e o que fazem para sanar suas dívidas”, disse Renato Vicente, professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP e diretor de data science no Data Lab da Serasa Experian no Brasil.

Linhas de pesquisa

Atualmente, os cientistas do AI2 estão envolvidos em três frentes de pesquisas, financiadas por parceiros privados. Um dos projetos tem o objetivo de ajudar a monitorar melhor o processo de perfuração de poços de petróleo e gás e desenvolver aplicativos orientados à visão computacional para identificar situações de risco em plataformas petrolíferas.

O segundo projeto visa fomentar o uso da robótica como ferramenta educacional, desenvolver robôs de serviço – que executam tarefas úteis para os humanos ou equipamentos, excluindo aplicações de automação industrial – e estudar as interações homem-máquina.

Já o terceiro projeto é voltado a acelerar a simulação de colisões de partículas atômicas por meio de técnicas de aprendizado de máquina, que têm diversas aplicações, como distinguir uma fotografia real de uma montagem. 

As simulações são fundamentais para a verificação de dados reais, obtidos das colisões de partículas no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), da Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN, também na sigla em inglês), na Suíça. Para obter a precisão estatística necessária é preciso fazer várias simulações de colisões, que levam entre dois e três minutos cada.

O problema para fazer as simulações ficará ainda mais complexo com o upgrade do LHC, previsto para acontecer entre 2019 e 2020. Até agora eram registradas entre 30 e 40 colisões de partículas simultâneas no colisor. Após o upgrade, o número de colisões simultâneas passará a ser da ordem de 200.

“Isso começa a inviabilizar a forma como são feitas as simulações hoje. Precisaríamos ter computadores que rodassem os dados seis vezes mais rápido ou sextuplicar o número de computadores que usamos para essa finalidade”, disse Thiago Tomei, pesquisador do São Paulo Research and Analysis Center (SPRACE), à Agência FAPESP.

Criado em 2003, com apoio da FAPESP, o SPRACE, coordenado por Novaes, viabiliza a participação de pesquisadores em Física de Altas Energias do Estado de São Paulo no experimento Compact Muon Solenoid (CMS) do LHC.

Por meio de técnicas de aprendizado de máquina, os pesquisadores do AI2 pretendem acelerar em mil vezes as simulações e, dessa forma, agilizar a identificação de partículas após um evento de colisão e aumentar a precisão dos resultados.

“A ideia é usar os chamados modelos generativos para permitir que um algoritmo ‘aprenda’ a classificar amostras de dados e, ao fazer isso, gere novas amostras”, explicou Tomei.

Área em ascensão

Até então associada a soluções capazes de fazer máquinas e softwares aprenderem e executarem tarefas usando como base o raciocínio humano, a inteligência artificial tem passado por uma revolução nos últimos anos. Alguns dos fatores responsáveis por isso foram o aumento da disponibilidade de dados digitais (big data) e o poder de processamento da computação na nuvem (cloud computing).

Esses dois fatores permitiram desenvolver algoritmos para realizar tarefas específicas, como manobrar um veículo autônomo, detectar fraudes em sistemas, identificar células cancerosas em imagens de ressonância magnética e rastrear pragas em lavouras, entre outras aplicações, explicam especialistas na área.

Países como China, Estados Unidos, Inglaterra, França, Canadá e Japão têm investido pesadamente em inteligência artificial por entenderam que a área é estratégica para o desenvolvimento econômico, social e científico e para garantir a segurança, a independência e a soberania.

A China, por exemplo, tem planos de investir US$ 1 trilhão até 2030 em inteligência artificial para garantir a liderança mundial na área. E o Canadá, que tem dois centros de pesquisa em inovação artificial – em Toronto e em Montreal –, lançou em 2017 uma política nacional para estimular o desenvolvimento da área no país.

“Os investimentos em inteligência artificial no Canadá aumentaram muito nos últimos anos e houve um crescimento de 30% no número de startups atuantes nessa área no país em 2018”, disse Marie-Hélène Béland, vice-cônsul do Consulado Geral do Canadá no Brasil, durante o evento.

Já no Brasil, as iniciativas de investimento no setor têm sido tímidas, avaliaram participantes do evento. A criação do AI2 poderia ajudar o país a aumentar a exploração desse campo de conhecimento, estimaram.

“O Brasil, infelizmente, está ficando para trás nessa área. Deixar de acompanhar o progresso da inteligência artificial será, provavelmente, um caminho sem volta. Será pior que no caso dos semicondutores, em que o país perdeu a onda e nunca mais conseguiu recuperar”, disse Novaes.

“Uma forma de acompanhar o avanço dessa área é manter-se atualizado e, ao mesmo tempo, começar a fazer associações diretas entre o setor privado e o meio acadêmico para o desenvolvimento de projetos conjuntos”, apontou.

Contribuição da FAPESP

Na avaliação dos pesquisadores integrantes do instituto, o apoio de agências de fomento como a FAPESP tem sido determinante para a evolução dessa área no Estado de São Paulo, sobretudo por meio de programas como o Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).

Nos últimos seis anos, o programa PIPE da FAPESP aumentou em mais de seis vezes o número de empresas na área de Inteligência Artificial apoiadas. Em 1997, quando começou o PIPE, havia uma média de cinco projetos por ano nessa área do conhecimento. Nos últimos dois anos, esse número saltou para 40, segundo dados apresentados por Marcelo Finger, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP e membro da coordenação de Ciência e Engenharia da Computação da FAPESP, durante o Ciclo de Palestras ILP-FAPESP sobre Inteligência Artificial. O evento ocorreu em novembro de 2018 na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Segundo Finger, o apoio da FAPESP a projetos na área de inteligência artificial começou em 1992 e aumentou vertiginosamente a partir de 2012. 

A FAPESP está apoiando, em parceria com a IBM, a criação de um Centro de Inteligência Artificial no âmbito do programa Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE). Para constituir o novo centro foi lançada uma chamada de propostas para grupos de pesquisa vinculados a universidades e institutos de pesquisa do Estado de São Paulo.

A data final para submissão de propostas à FAPESP é 15 de abril de 2019. No dia 12 de março, a FAPESP e a IBM promoverão reunião de trabalho para apresentação de temas e esclarecimento de dúvidas.

As instruções específicas aos pesquisadores do Estado de São Paulo podem ser encontradas em www.fapesp.br/12504.

 Elton Alisson
Agência FAPESP

ligas

Um projeto em andamento no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) tem como objetivo produzir próteses ortopédicas com as ligas nióbio-titânio e titânio-nióbio-zircônio por fusão seletiva a laser. As primeiras peças já estão sendo fabricadas por impressão em 3D usando esses materiais na forma de pó, informou a assessoria de imprensa da instituição.

A iniciativa conta com financiamento da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE). Além disso, integram o grupo de pesquisa quatro bolsistas apoiados pela Fundação: Jhoan Sebastian Guzmán Hernández, Railson Bolsoni Falcão, Edwin Sallica Leva e Emerson Titonello (leia mais em http://agencia.fapesp.br/23724/).

A primeira fase do trabalho, iniciado em 2017, consistiu na produção dos pós de acordo com uma série de exigências necessárias para trabalhar com o sistema de deposição. A segunda fase, agora em andamento, concentra-se na manufatura aditiva, ou seja, na fabricação e na caracterização de próteses de quadril (placas angulares de fêmur).

Além da FAPESP, apoiam o projeto a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), o Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e, no IPT, o Laboratório de Processos Metalúrgicos.

Segundo Hernández, em sua área de atuação, um dos grandes desafios é obter peças de alta densidade que permitam incrementar a qualidade final das próteses.

“Estou trabalhando com a liga de nióbio-titânio por conta de sua estrutura cristalina, buscando otimizar os parâmetros e caracterizar as propriedades mecânicas das amostras fabricadas. Paralelamente, outro grupo trabalha com a textura do material, que pode ser controlada na impressão 3D com base em parâmetros como potência, velocidade e geometria das poças de fusão”, explicou Hernández.

As poças são microestruturas típicas apresentadas nos materiais fabricados por fusão seletiva a laser. "Dependendo da morfologia, é possível controlar a orientação cristalina dos grãos, ou seja, a textura, Se os grãos crescem em uma direção ou em outra, apresentam diferentes propriedades mecânicas", acrescentou o engenheiro.

A exploração da rota de impressão tridimensional exige o conhecimento das relações entre os parâmetros de processo e a qualidade da prótese quanto à resistência mecânica, à resistência à corrosão e ao acabamento superficial. A produção de peças em máquinas de impressão pode ser realizada seguindo diversos parâmetros, o que traz mudanças significativas nos resultados finais.

O resultado buscado pelo projeto do IPT é a obtenção de peças não apenas de alta densidade relativa, mas principalmente com baixo módulo de elasticidade (rigidez do material).

As ligas comumente usadas em próteses têm um alto módulo de elasticidade e estudos recentes apontam que o nióbio, quando adicionado ao titânio, pode reduzir esse valor.

Para o paciente, a importância do baixo módulo de elasticidade está no fato de o padrão normal de solicitação mecânica de um osso ser alterado de modo crítico quando um implante metálico é empregado em cirurgias ortopédicas. O osso e o implante passam a compartilhar o carregamento aplicado e, de acordo com a capacidade de adaptação do osso hospedeiro, pode ocorrer uma redistribuição da massa óssea com desmineralização em regiões próximas ao implante.

“É preciso que o módulo de elasticidade da prótese seja o mais similar possível ao do osso para que não aconteça o chamado stress shielding, ou seja, a descalcificação do tecido ósseo”, disse Hernández. “A intenção é que a carga do corpo fique distribuída tanto no osso quanto na liga.”

Novos materiais

A liga nióbio-titânio faz parte da lista de novos materiais que está sendo proposta atualmente para a construção de próteses. Atualmente, seu uso é praticamente restrito à fabricação de supercondutores. “Além de apresentar baixo módulo de elasticidade potencialmente, esta liga tem a vantagem de ser um material inerte, ou seja, não reage com o corpo humano”, contou Daniel Leal Bayerlein, pesquisador do Laboratório de Processos Metalúrgicos e coordenador do projeto.

A liga mais encontrada hoje no mercado para uso em próteses é composta de titânio-alumínio-vanádio. A dois desses elementos (alumínio e vanádio) diversas pesquisas atribuem problemas de saúde, como doenças respiratórias, câncer e Alzheimer.

Impressão 3D

Os pós das ligas usadas na impressão das peças estão sendo fabricados no IPT por um processo conhecido como hidretação-moagem-dehidretação (HDH). Com uma estratégia de benchmarking, esses mesmos pós foram produzidos, por encomenda, em uma empresa no Canadá especializada em materiais para manufatura aditiva.

As peças do chamado primeiro lote – que podem ser consideradas como peças-piloto – foram construídas por impressão 3D com duas amostras diferentes de pós: uma primeira quantidade de três quilos foi obtida por HDH no próprio laboratório do IPT, e a segunda, a partir do pó importado do Canadá.

Após a fabricação das primeiras peças, o próximo passo é a avaliação dos corpos de prova para escolha daqueles que apresentaram melhor desempenho e, a seguir, a confecção de uma série deles para serem submetidos a ensaios mecânicos.

“Em manufatura aditiva com novos materiais é preciso trabalhar com diferentes variáveis para atingir os parâmetros de alta densidade. Não existe uma receita pronta”, ressaltou Hernández.

Uma apresentação dos primeiros resultados do projeto foi feita em outubro de 2018 no congresso Materials Science & Technology (MS&T), realizado na cidade de Columbus, nos Estados Unidos. A caracterização metalográfica e algumas caracterizações mecânicas das peças fabricadas no primeiro lote foram mostradas por Hernández.

“Professores e pesquisadores comentaram que estão buscando alternativas para a liga titânio-alumínio-vanádio por causa das implicações no corpo humano. Fomos os únicos no congresso a apresentar um estudo sobre a liga nióbio-titânio”, disse o pesquisador.

O projeto do IPT está previsto para terminar no primeiro semestre de 2020.

Agência FAPESP

cultivar de arroz

Pesquisadores da Embrapa acabam de desenvolver uma cultivar de arroz irrigado que demanda 15% menos irrigação em comparação às cultivares de ciclos mais longos. Chamada de BRS Pampa CL, o novo arroz é destinado à Região Sul do Brasil e necessita de apenas uma aplicação de fungicida, caso necessário, pois apresenta resistência genética a fungos.

As cultivares convencionais, predominantes na lavoura gaúcha, são suscetíveis às principais doenças e demandam, em média, três ou mais aplicações de fungicidas. Somente esse diferencial impacta em uma economia de R$130,00 por hectare ao agricultor. Mais eficiente, a BRS Pampa CL é capaz de apresentar alta produtividade em solos mais pobres.

Por reduzir o emprego de químicos e o uso de água, o novo cereal é ambientalmente mais sustentável. Classificado como arroz de grão nobre, ou premium, o produto apresenta, se bem manejado, altas taxas de grãos inteiros após o beneficiamento, cerca de 64%, característica relacionada ao valor do produto do mercado.

A BRS Pampa CL é um resultado do projeto Melhoramento Genético para Produtividade e Qualidade dos Grãos da Cultura do Arroz no Brasil, Ciclo II, feito em parceria pelas unidades da Embrapa Clima Temperado (RS) e Embrapa Arroz e Feijão (GO).Ela é oriunda da BRS Pampa, do grupo das cultivares precoces, colhida em média de 118 dias, e com produtividade média de dez toneladas por hectares.

É uma planta considerada moderna, com alta capacidade de perfilhamento e possui características exigidas pelo mercado como ter grãos tipo agulhinha, longo-fino, e seu maior destaque está na possibilidade de fazer parte do sistema "clearfield", que quer dizer, campo limpo. Ou seja, esta cultivar está apta a desenvolver-se em áreas com a presença de arroz vermelho, uma planta invasora que ameaça à lavoura por infestar os cultivos de forma agressiva.

"Após a mutação induzida de variedades de arroz feita por melhoristas, se identificou um gene resistente a herbicidas, que foi incorporado à cultivar desenvolvida pela Embrapa”, conta o pesquisador da Empresa, Ariano Martins de Magalhães Júnior, responsável pelo lançamento da cultivar. O cientista afirma que a técnica foi um sucesso e o novo arroz apresentou resistência aos herbicidas empregados para controle do arroz vermelho. “Hoje, cerca de 80% de orizicultores do RS utilizam o sistema clearfield", informa o pesquisador pontuando que a genética da BRS Pampa CL é quase a mesma de sua cultivar de origem. “Ela possui 99,7% do genoma da BRS Pampa pontua Magalhães Júnior.

Menos herbicidas

A nova cultivar é um resultado do retrocruzamento entre a cultivar comercial BRS Pampa e a variedade Puitá Inta CL, da empresa Basf, que é fonte de tolerância aos herbicidas do grupo das imidazolinonas.

"O uso dessa cultivar vai proporcionar um melhor controle de invasoras, pois quando estas aparecem, ainda associadas às doenças, são certamente as principais barreiras limitantes da produtividade", fala o engenheiro agronômo Rafael Vergara, técnico responsável pelas lavouras da Sementes Simão, de Dom Pedrito, município da região da Campanha do RS, parceira da Embrapa na produção de sementes da cultivar BRS Pampa CL.

Para ele, a cultivar que está inserida no sistema CL além de facilitar a diminuição de aplicações de herbicidas, tem a principal vantagem de obter maior eficiência na aplicação. "O orizicultor tem um material genético que suporta aquela determinada molécula dos herbicidas", explica o agronômo.

Atualmente, o material está em fase final de testes em propriedades rurais gaúchas e as suas sementes estão garantidas para os orizicultores na próxima safra de 2019/2020. A cultivar será conhecida à campo durante a realização da 29ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz no Rio Grande do Sul, marcada para acontecer entre 20 a 22 de fevereiro, nos campos experimentais da unidade de pesquisas da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS).

Números da BRS Pampa

Resultados da BRS Pampa que deu origem à BRS Pampa CL

Economia em Água - Como a BRS Pampa apresenta ciclo menor, há menos uso de água. Conforme o engenheiro agronômo Felipe Matzenbacher, das Sementes Condessa, do município de Mostardas (RS), ao introduzir a variedade BRS Pampa, nas áreas menos férteis da propriedade, houve uma redução de 15% no período de irrigação. "A variedade BRS Pampa, em relação à variedade de ciclo médio, Irga 424 RI,  semeada em grande proporção do Estado teve essa taxa de economia. Quanto menor o ciclo de desenvolvimento da planta, menos água ela precisa, então como ela antecipa 15 dias antes o arroz, ela também usa 15% menos de irrigação na lavoura", diz Matzenbacher. Ou seja, na região subtropical, estima-se que seja usado na lavoura de arroz irrigado um volume de água em torno de 12 mil m³/ha a 15 mil m³/ha, se houver esta redução, será possível diminuir dois mil metros cúbicos de água por hectare.

Menos defensivos - Matzenbacher confirma que uma única aplicação de fungicida na lavoura de arroz é o suficiente para um bom controle de doenças fúngicas ao se utilizar a cultivar. "Apenas com uma aplicação e a realização de um vôo de avião sob a lavoura é possível economizar cerca de 130 reais por hectare", informa o agronômo. Isso gera economia de 13 mil reais em cem hectares, o que equivaleria, por exemplo, a possibilidade de compra de cinco máquinas beneficiadoras de arroz. O pesquisador Magalhães Júnior  reforça: "a BRS Pampa CL tem resistência genética às principais enfermidades do arroz, como a brusone. Existem cultivares que necessitam de três ou quatro aplicações durante a safra".

Mais grãos inteiros - Segundo Matzenbacher, a BRS Pampa tem apresentado bons resultados nos últimos anos em suas lavouras de arroz na região da planície costeira externa do Rio Grande do Sul, alcançando cerca de 64% de grãos inteiros. Mas a quebra varia conforme a região, o manejo, o clima durante o enchimento dos grãos. "Quanto menor a quebra, mais bem remunerado é o produtor rural e mais rendimento de engenho trará dentro da indústria. Assim, quanto maior o rendimento de engenho, mais valor agregado é gerado em toda a cadeia orizícola", explica. Conforme explica o agrônomo, isso se deve a fatores genéticos da cultivar que possui uma qualidade diferenciada com baixo centro branco. Mesmo em outras regiões do estado, onde as condições não são tão favoráveis, a BRS Pampa CL tem demosntrado genética superior quando comparada a cultivares que estão no mercado. Por isso, os cientistas acreditam que o novo cereal deverá ter excelente valorização sendo classificada como arroz premium. A BRS Pampa CL tem amilose alta e baixa temperatura de gelatinização, o que significa que em qualidade culinária os grãos serão macios e soltos no cozimento.

Redução da adubação nitrogenada

A experiência da propriedade no município de Mostardas mostrou também que a cultivar utiliza menos adubação nitrogenada. A cultivar é mais eficiente na absorção de nutrientes podendo-se reduzir entre 15% a 30%, o uso de nitrogênio, dando maior sustentabilidade econômica e ambiental ao cultivo. A redução de nitrogênio também diminui a possibilidade de acamamento da lavoura. "O aumento de nitrogênio em cobertura favorece ao acamamento. Por isso, se utiliza menos adubação. Não podemos usar todo o nitrogênio que gostaríamos. É uma desvantagem no manejo, mas acaba trazendo benefícios, como economia no seu uso", destaca Felipe Matzenbacher.

Cristiane Betemps (MTb 7418/RS)
Embrapa Clima Temperado