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Filha da Anistia, com direção de Helio Cicero, estreia no Capobianco

05/03/2010 00:03 por Esteta Beleza e Arte em Cultura e lida 28 vezes.

Helio Cicero e Carolina Rodrigues - foto de Vitor Vieira

Carregado de densidade e poesia, primeiro texto teatral de Carolina Rodrigues mostra as relações de uma família corroída pela ditadura militar.

O espetáculo Filha da Anistia, com texto de Carolina Rodrigues e direção de Helio Cicero, estreia dia 25 de março, quinta-feira, no Instituto Capobianco, às 21 horas. A peça conta a história de uma jovem que vai em busca do pai que nunca conheceu e acaba descobrindo um passado de mentiras e omissões, forjado durante os anos de chumbo no Brasil.

O espetáculo é uma obra de ficção que tem no elenco a própria autora (vivendo Clara e Iara), o diretor (como Jorge) e Alexandre Piccini (o jovem Jorge). O enredo se desenvolve a partir da memória de Jorge, um personagem que militou na resistência à repressão política durante a ditadura militar e que agora precisa revelar o passado e suas drásticas conseqüências para a sobrinha Clara, que desconhece tanto a sua origem familiar, quanto a história de seu país.

O projeto foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Durante a temporada, haverá debates aos domingos, a partir de 28 de março, logo após a apresentação, com participação dos atores, do público presente e de representantes do Núcleo de Preservação da Memória Política. O público pode ainda apreciar a exposição Pequenas Insurreições - Memórias, que reúne mais de 20 obras em desenho, pintura, montagem e xilogravura, produzidas nos presídios políticos de São Paulo, entre 1969 e 1979. As peças integram um acervo maior, a Coleção Alípio Freire - Rita Sipahi, e são assinadas por artistas como Sérgio Ferro, Sérgio Sister, Angela Rocha, Arthur Scavone, Alípio Freire e Carlos Takaoka, entre outros.

O projeto Filha da Anistia nasceu após três anos de pesquisa. Carolina Rodrigues e Alexandre Piccini mergulharam em arquivos públicos e bibliotecas; leram livros, teses e biografias; conheceram e entrevistaram militantes. “Durante esse processo, uma pergunta ganhou força em nós: qual ditadura existiu: a que nos foi apresentada nos tempos de escola ou essa que estamos conhecendo através da pesquisa? A busca por esta resposta e por entender o que estava oculto me impulsionou a escrever o argumento da peça”, comenta Carolina. Mas o texto final resultou do processo de criação, durante os ensaios, que vêm acontecendo desde outubro de 2009. Carolina, junto com Cicero e Piccini, foi traçando os caminhos do enredo; recebeu orientação dramatúrgica de Samir Yazbek, até chegar ao texto final da peça.

Sobre o tema do espetáculo a autora revela que é atraída por histórias que discutam o ser humano. “Busco o teatro que mostra a capacidade que o homem tem de transformar a si mesmo e o mundo em que vive. A consciência política é um passo fundamental para nos situarmos numa sociedade não individualista”, argumenta Carolina. Filha da Anistia provoca no espectador a reflexão sobre esse período da política nacional por meio da história de uma família despedaçada pela ditadura. A montagem revela os dois lados da sociedade, inserida neste contexto: o da omissão e conformismo e o da luta pela liberdade cerceada pela repressão.

“Meu orgulho é ter conseguido realizar esse trabalho sem armas no palco e sem nenhuma cena de tortura”, revela o diretor Helio Cicero. “A repressão não tinha cara, não tinha identidade; uma arma apontada não é o elemento mais importante para mostrar que não temos liberdade”. A ditadura militar é exposta por meio das lembranças do personagem Jorge sobre os encontros e conversas com a irmã Iara. A direção buscou um ritmo ágil para essas cenas do passado, explorando os diálogos sem didatismo e sem discurso político. O texto mostra o amor fraterno em meio à irreverência da juventude e ao inconformismo para revelar as conseqüências devastadoras da repressão àqueles que lutaram pela liberdade. “O projeto Filha da Anistia vem colaborar com a necessidade de compreendermos a história e de aprendermos com ela”, afirma o ator Alexandre Piccini.

A relação entre os irmãos é o ponto forte explorado pela direção de Cicero que compara o percurso deles ao dos personagens infantis João e Maria que, “largados na floresta desconhecida, diante do monstro, eles precisam lutar com as armas que têm”. Dos contos infantis a peça traz as imagens do terror e do medo, misturados na educação de uma família de militares. O figurino, de Telumi Hellen, é totalmente relacionado à memória e traduz bem essas imagens. Algumas alegorias se misturam aos mitos e arquétipos - como os soldados, o herói, a santa, a bruxa, o general, o rei - para fazer a ponte entre a infância e os pesadelos da repressão.

Toda a concepção da peça é direcionada para fugir do naturalismo e do realismo e cair no âmbito poético. Deste modo trabalha a iluminação, de Osvaldo Gazotti, onde as sombras, o preto e o branco do presente trazem um contraste com tons coloridos do passado. Corredores de luzes se cruzam como se o olhar para o passado fosse um farol em movimento, focando em alguns fragmentos. No cenário, assinado por Laura Carone Cardieri, alguns elementos de forte simbologia dão o contraste necessário à ambientação: uma mesa, a “cadeira do dragão” (o “trono” da tortura, onde Jorge continua aprisionado), um jardim vivo (a infância) e um jardim morto (a floresta). A trilha sonora original (Alexandre P. Ribeiro) ajuda a compor a atmosfera densa e poética da peça.

O enredo

A história se passa no ano de 2009. Clara é uma advogada de 30 anos que procura refazer sua história, desde o nascimento quando foi morar com os avós paternos. Tudo que tem é o endereço de seu suposto pai, Jorge, que a avó lhe deu antes de morrer. Sua história é um mistério, contaram-lhe que seu nascimento ocasionou a morte da mãe e nunca viu o pai pessoalmente, cuja presença era inaceitável pelo avô militar.

Com a morte da avó, Clara resolve procurar pelo pai e esclarecer o passado, mas ela não imaginava que sua vida seria radicalmente transformada, a partir das revelações deste encontro. Ao perceber o abismo cultural e histórico entre a sua geração e a de Clara, Jorge é acometido por duras lembranças e toma consciência da herança deixada pela ditadura nas gerações posteriores ao golpe.

Ao tentar recuperar a história, vivida por ele e seus companheiros na juventude, e provocar a reflexão em Clara, que cresceu alheia a esse processo histórico, Jorge revela que é, na verdade, seu tio, irmão de sua mãe, Iara. A jovem então descobre que sua mãe e seu tio foram jovens militantes da resistência contra a ditadura militar, após o golpe de 1964, e que sua mãe - grávida do namorado, também militante - perdera a vida, após ser presa e torturada pela repressão. A criação da pequena Clara foi assumida pelos avós, que inventaram uma história fantasiosa e descabida, omitindo a existência da filha, sua mãe, e dizendo ser ela filha de Jorge.

Todas as certezas de Clara caem por terra diante de tão duras revelações sobre seu passado familiar e sobre um período da história de nosso país que poucos conhecem e que a maioria prefere esquecer. Para ela, isso não será mais possível.

“Fatos terríveis ainda me constrangem e não consigo disfarçar a ira; não poderei silenciar jamais diante desta enorme desventura. Pode-se ponderar no desespero? É justo negligenciar os mortos? Entre que homens se procede assim?” Electra – Eurípedes.

A história x a montagem

A montagem de Filha da Anistia coincide com o 30º aniversário da Lei da Anistia (28/08/79), comemorado em 2009. “Acredito ser importante convocar à reflexão principalmente as gerações pós-ditadura brasileira, os jovens de hoje que têm pouco conhecimento sobre este período tão marcante de nossa história”, explica Carolina Rodrigues. O espetáculo tem como objetivo contribuir para que o Brasil avance na consolidação do respeito aos Direitos Humanos, sem medo de conhecer a sua história recente.

“No Brasil, a radiografia dos atingidos pela repressão política durante a ditadura militar (1964-1985) não está concluída. Ainda há uma lacuna entre passado e presente, marcada pela ocultação dos acontecimentos, a negação ao direito à verdade e à justiça, limitando a ação reparadora e impedindo a articulação e transmissão da herança e da memória desses anos de violência”. (Janaína Almeida Telles, historiadora, 2005).

Filha da Anistia dialoga com as atuais discussões sobre Direitos Humanos que acontecem no País. A seriedade e coerência deste projeto atraíram apoiadores fundamentais para a concretização da montagem, são eles: Memorial da Resistência de São Paulo, Pinacoteca do Estado, Núcleo de Preservação da Memória Política, Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, Comissão da Anistia, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Caros Amigos Cia de Teatro da Cooperativa Paulista de Teatro.

Antígona julgava que não haveria suplício maior do que aquele: ver os dois irmãos matarem um ao outro. Mas enganava-se. Um garrote de dor estrangulou seu peito já ferido ao ouvir do novo soberano, Creonte, que apenas um deles, Etéocles, seria enterrado com honras, enquanto Polinice deveria ficar aonde caiu, para servir de banquete aos abutres. Desafiando a ordem real, quebrou as unhas e rasgou a pele dos dedos cavando a terra com as próprias mãos. Depois de sepultar o corpo, suspirou. A alma daquele que amara não seria mais obrigada a vagar impenitente durante um século às margens do Rio dos Mortos.

Ficha Técnica
Espetáculo: Filha da Anistia
Dramaturgia: Carolina Rodrigues
Direção: Helio Cicero
Orientação dramatúrgica: Samir Yazbek
Elenco: Alexandre Piccini, Carolina Rodrigues e Helio Cicero
Direção de arte e cenário: Laura Carone Cardieri
Iluminação: Osvaldo Gazotti
Figurino: Telumi Hellen
Trilha e música original: Alexandre P. Ribeiro
Preparação corporal: João Otávio
Projeto gráfico e vídeos: Hórus Produções
Fotografia: Vitor Vieira
Produção executiva: Silvia Marcondes Machado
Direção de produção: Carolina Rodrigues

Serviço
Estreia para convidados: 25 de março – quinta - às 21 horas
Estreia para o público: 26 de março – sexta – às 21 horas
Debates: 4, 11 e 18 de abril – domingos – às 19h30 (após apresentação)
Instituto Capobianco – Teatro da Memória - http://www.institutocapobianco.org.br/
Rua Álvaro de Carvalho, 97 – Centro/SP – Tel: (11) 3237-1187.
Temporada: quinta, sexta e sábado (21 horas) e domingo (18 horas) – Até 18/04
Ingressos: R$ 20,00 (¹/2 entrada: 10,00) - Duração: 80 min - Gênero: Drama
Classificação etária: 14 anos - Capacidade - 99 lugares. Bilheteria: 1h30 antes do espetáculo. Aceita dinheiro e cheque. Faz reservas por telefone. Ar condicionado.

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Por em 31/12/1969 21:00