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Gerald Thomas dá uma pausa nos ensaios da ópera Ghost Sonata, no Metropolitan de NY, para comandar o Gerald Thomas Fala e Ouve, no Rio de Janeiro.

01/08/2012 23:32 por Esteta Beleza e Arte em Cultura e lida 534 vezes.

Gerald Thomas dá uma pausa nos ensaios da ópera Ghost Sonata, no Metropolitan de NY, para comandar o Gerald Thomas Fala e Ouve, no Rio de Janeiro.

Mesmo ensaiando no Metropolitan de NY a ópera Ghost Sonata, baseada na peça do dramaturgo sueco August Strindberg, com John Paul Jones, o lendário baixista do Led Zepellin, Gerald Thomas aceitou o convite do Teatro Poeira para, nos dias 20, 21, 22, 27, 28 e 29 de agosto, integrar o Projeto Artista Visitante comandando o Gerald Thomas Fala eOuve (Entredentes do Teatro).

O programa que Gerald Thomas vai fazer no Teatro Poeira talvez possa ser considerado um seminário. Ele quer discutir teatro com gente de teatro e outras gentes. Quer se encontrar com a classe teatral do Rio: os jovens dramaturgos, os diretores, atrizes, atores, cenógrafos (ele é um artista plástico, foi ilustrador do NY Times), críticos. Ele quer discutir Teatro, os rumos do teatro hoje, as possibilidades. E quer ouvir também, daí o título Fala e Ouve.

Gerald escreveu o texto abaixo especialmente para essa vinda. É um texto pessoal, tem um certo tom de desabafo, brincalhão, fora dos padrões de um texto explicativo.

Gerald Thomas Fala e Ouve
(Entredentes do Teatro)

“Perdi o contato com o Rio. Não sei bem explicar o que aconteceu. Mas a vontade de retomá-lo é enorme. É com enorme tristeza que tenho passado pelo Rio como um mero turistinha, passando de taxi pelos teatros em que me apresentei e que me levaram ao Brasil desde 1985. São muitas lembranças boas, ótimas e tristes.

Depois de um fim de semana quase tempestuoso, olho com atenção e pasmo para schedule intensivo que me leva até 2016!!! Sim, nesse schedule estão todas as cidades do mundo, menos o Rio. Nada de Rio. Não tem explicação. Justamente a cidade onde fui criado e para a qual voltei como profissional já tendo encenado (e convivido com) Samuel Beckett no La MaMa, o Rio não parece estar dentro dos meus parâmetros.

Estou cansado. Cansado mas feliz com o convite do Teatro Poeira para uma série de encontros, debates, etc com as pessoas de teatro do Rio que eu sigo e que me seguem desde que Sérgio Britto me levou praí em 85 pra replicar a Beckett Trilogy, do La MaMa e construir o que seria o Quatro Vezes Beckett. Depois disso foi uma enxurrada. Desde Carmem com Filtro (SP – Fagundes e Companhia Estável de Repertório) até a première brasileira de Quartett de Heiner Mueller com Tônia e Sérgio e até a formação da Companhia de Ópera Seca com Eletra Com Creta, no MAM e por aí vai.

O Globo e a GloboNews (junto com a Folha) repercutiram amplamente a criação da London Dry, desde as audições (reportagem de Arnaldo Bloch) até matérias de lançamento do correspondente e, finalmente uma análise do próprio Arnaldo, que veio pessoalmente assistir Throats. Também um grande bafafá da imprensa recebeu a segunda peça da Companhia (Gargolios), quando ela foi para o SESC Vila Mariana em julho de 2010, para um mês de temporada fantástica com uma esticada pra Santos (1.500 pessoas por sessão). Curitiba não foi diferente: das televisões locais até o Jornal Nacional estávamos cobertos de público, imprensa e algumas doenças internas (entre os atores), mas me perguntei porque tamanha publicidade não nos levava pro Rio. É estranho. E sempre pude notar que, entre os meus queridos 5.000 friends do Facebook, a maior parte carioca reclamava “traz pro Rio”, como se nós, os autores e diretores fossemos os responsáveis pelo estacionar da caravana e da diária de um teatro.

É quase inacreditável pensar que a minha companhia, a London Dry Opera se apresentou por um mês em São Paulo, Curitiba e até Santos. Mas não no Rio.
Meus últimos espetáculos no Rio foram Rainha Mentira e Terra em Trânsito no Oi Futuro, em 2007. Antes disso, estive aí com o Circo de Rins e Fígados que escrevi pro Nanini.

Falo pelos cotovelos, escrevo pela boca e me estresso com tudo. E uma das coisas que mais me estressam nesse brave new world é o rumo do teatro, dos teatros, do que se diz e como dize-lo. Até aí, nada de novo.

Mas uma das coisas que mais me afligem hoje em dia nesse mundo teatral é o contato entre aqueles que “fazem” o teatro acontecer.

Lemos muito sobre o “ano desse país no outro” ou do ano do Brasil não sei aonde. Mas o que você pensa? Aonde você quer colocar a sua ênfase? O que você tem a dizer?

Ao completar 32 anos de teatro em 17 países (atualmente concentrado em Londres com a minha London Dry Opera Company) ainda tento colocar no palco uma mistura do real (acontecimentos recentes ou históricos), com criptonitas da nossa mente. Confesso que a vida não ficou mais fácil com tanta informação. Ficou mais difícil, ficou mais diluída, mais idiota e por aí vai.

E o interesse do público por aquilo que fazemos?

Não, esquece isso. O interesse tem que ser nosso, já que a proposta do artista é a de estar na FRENTE dos acontecimentos até o ponto de provocá-los. Depois vem o público que se interessa: aquele que constrói a opinião. Depois vem o resto. Como eu sempre disse: vivo NO risco e DO risco. Justamente por acreditar piamente nisso, “matei”, soterrei vários espetáculos meus que não arriscavam nada: exemplos Saints and Clowns (Hamburg 1992) e mesmo Throats com a London Dry Opera Company porque peguei me plagiando. Roubei de mim mesmo. Do bolso direito direto pro esquerdo.

Ainda tenho algum respeito quando lembro de Grotowski me dizendo que “tem que ter um pé na lama e outro na merda”.

Quero ouvir, entre unhas e entredentes, o que vocês têm a dizer. Sim, porque apesar dos pesares, ainda tenho MUITO a dizer e estou a dize-lo.”

Gerald Thomas
Londres – NY Julho 2012

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